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A entrega do Reino ao Pai

Por Cleiton Gomes


Desde o princípio, toda a criação pertence ao ETERNO. Antes que existissem nações, reis ou fronteiras, sua soberania já se estendia sobre todas as coisas (Salmos 24:1; 47:7 e 8). Sua autoridade sempre existiu e sempre se estendeu sobre tudo aquilo que veio à existência. Por essa razão, as Escrituras apresentam o Reino não como um território delimitado por fronteiras, mas como a manifestação do governo, da autoridade e da soberania do Criador.

Embora a terra tenha sido confiada aos filhos dos homens para que a administrassem (Salmos 115:16), essa responsabilidade nunca significou a transferência da soberania divina. Os homens receberam autoridade para governar, mas essa autoridade sempre foi limitada, temporária e subordinada ao governo do ETERNO. Em nenhum momento o Criador deixou de ser o verdadeiro Rei sobre toda a criação.

Foi justamente nesse Reino eterno que a humanidade escolheu rebelar-se. Desde o Éden, o homem afastou-se da vontade do seu Criador (Gênesis 3). A comunhão foi rompida, o pecado entrou no mundo e, com ele, vieram a morte, a corrupção e toda forma de injustiça. Entretanto, o Reino do ETERNO jamais foi abalado. A rebelião nunca destituiu o Rei do seu trono. O problema nunca esteve no governo divino, mas na própria criação, que deixou de viver em submissão àquele a quem tudo pertence.

Ao longo das Escrituras, o ETERNO revelou que essa rebelião não permaneceria para sempre. Os profetas anunciaram o dia em que o pecado seria vencido, a morte seria destruída e toda a criação voltaria a viver em perfeita comunhão com seu Criador (Isaías 25:8; Zacarias 14:9).

É nesse contexto que Yeshua entra na história. Sua missão não consistia em inaugurar um novo Reino, pois o Reino sempre existiu. Ele veio manifestar esse Reino entre os homens e iniciar a restauração da comunhão perdida pelo pecado. Sua mensagem chamava os homens ao arrependimento porque o problema nunca foi a ausência de governo, mas a rebelião contra esse governo (Marcos 1:15).

Por essa razão, seus milagres não eram apenas demonstrações de poder. Cada enfermidade curada, cada espírito maligno expulso e cada morto ressuscitado revelavam que o governo do Reino estava sendo novamente manifestado no mundo. Onde o pecado havia produzido desordem, o Messias restaurava a ordem. Onde a morte havia estabelecido seu domínio, a vida voltava a manifestar-se. Sua obra consistia em desfazer as consequências da rebelião iniciada no Éden.

Essa missão, porém, não terminaria com sua primeira vinda. As Escrituras afirmam que seu governo jamais terá fim. O profeta Daniel declarou que seu domínio é eterno e nunca passará (Daniel 7:13 e 14). Séculos depois, o mensageiro Gabriel anunciou a Maria que o Reino do Messias jamais teria fim (Lucas 1:32 e 33). Essas declarações impedem qualquer interpretação segundo a qual o governo do Messias seria temporário ou terminaria após cumprir determinada missão.

É justamente nesse ponto que muitos leitores encontram dificuldade ao chegar às palavras de Paulo em 1 Coríntios 15:24 a 28. Antes de interpretar suas expressões, porém, é necessário observar o próprio contexto da passagem. Nada no capítulo sugere que Paulo esteja procurando explicar como o ETERNO se relaciona em sua própria essência. Seu propósito não é discutir a natureza da divindade nem estabelecer uma hierarquia dentro dela. A temática de 1 Coríntios 15 é outra. 

Seria natural esperar uma discussão dessa natureza se Paulo estivesse combatendo ensinos equivocados sobre a identidade do Messias ou sua verdadeira humanidade. Esse tipo de argumentação aparece, por exemplo, nas cartas de João, escritas para confrontar ideias que mais tarde seriam características do gnosticismo. Entretanto, esse não é o caso de 1 Coríntios 15. Nada no contexto indica que Paulo esteja respondendo a esse tipo de controvérsia.

Desde o início do capítulo, o apóstolo desenvolve uma única linha de raciocínio: a ressurreição dos mortos, a derrota definitiva da morte e a consumação da obra de restauração. A temática desenvolvida é o plano de redenção. Seria completamente estranho interromper essa argumentação para introduzir, sem qualquer desenvolvimento, um assunto diferente.

Se Paulo não está tratando da natureza da divindade, como então suas palavras devem ser compreendidas? A resposta está no próprio contexto histórico da carta. Ao escrever aos coríntios, uma comunidade formada em sua maioria por gentios e profundamente inserida na cultura greco-romana, o apóstolo procurou comunicar verdades espirituais por meio de imagens familiares ao seu público. 

Em vez de recorrer a uma explicação espiritual e abstrata sobre a restauração da criação, Paulo estruturou sua argumentação a partir de um universo amplamente conhecido por seus leitores: a realeza. Vivendo em uma sociedade acostumada à figura de reis, imperadores, conquistas e povos submetidos ao seu governo, os coríntios podiam acompanhar mais facilmente o raciocínio do apóstolo. Em vez de apresentar apenas conceitos espirituais, Paulo organizou sua explicação dentro de um cenário familiar ao cotidiano de seus leitores, permitindo que realidades invisíveis fossem compreendidas por meio de imagens concretas e facilmente reconhecíveis. 

É dentro dessa perspectiva que Paulo fala em reinar, sujeitar, colocar os inimigos debaixo dos pés e entregar o Reino. Todas essas expressões pertencem ao mesmo cenário figurativo. As imagens empregadas por Paulo retratam a consumação da redenção por meio da figura de um rei que parte para restaurar um reino marcado pela rebelião. Ao longo de sua conquista, todos os inimigos são vencidos, até que o último deles, a morte, seja definitivamente destruído. Com a vitória completa, já não existe qualquer força que resista ao seu governo. O reino encontra-se plenamente pacificado e a missão alcança seu propósito. Isso não significa que o rei deixe de ser rei ou que perca sua autoridade. Significa apenas que sua missão como conquistador chegou ao fim, porque nada mais resta a conquistar.

É à luz dessa figura que devem ser compreendidas as expressões "entregar o Reino" e "o Filho se sujeitará". A entrega do Reino não representa a devolução de um governo que havia deixado de pertencer ao ETERNO. Paulo jamais afirma que sua soberania foi interrompida, compartilhada ou retirada de suas mãos. Essa expressão comunica que a obra restauradora alcançou sua plena consumação: a rebelião foi vencida, a morte foi derrotada e a criação encontra-se definitivamente reconciliada com o seu Criador. 

Da mesma forma, a sujeição do Filho deve ser compreendida dentro da mesma figura. O apóstolo não abandona a linguagem da realeza para explicar a natureza da divindade, mas permanece descrevendo o desfecho da missão do Rei. Assim como um rei encerra sua missão de conquista quando já não existem inimigos a serem vencidos, as expressões “o Filho se sujeitará” e “entrega o Reino” comunicam que a obra restauradora chegou ao seu propósito. Não significa que o Messias deixe de reinar, pois as Escrituras afirmam que o seu Reino é eterno. Na linguagem da realeza, um reino plenamente sujeito é aquele em que já não existem rebeliões, inimigos ou qualquer oposição ao seu soberano. É essa a realidade que Paulo procura comunicar.

É nesse sentido que Paulo conclui afirmando: "para que Elohim seja tudo em todos" (1 Coríntios 15:28). O Reino permanece eternamente nas mãos do ETERNO, pois jamais deixou de lhe pertencer. O que alcança sua plena consumação é a criação, agora definitivamente reconciliada com o governo eterno ao qual sempre pertenceu.


Seja iluminado!!!



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