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Israel e os limites da representação na adoração (parte 2)

 Por Cleiton Gomes

(Parte 2)

A entrada de Israel na terra prometida não encerrou o problema da idolatria. Pelo contrário, a convivência prolongada com os povos que permaneciam naquela região colocou diante do povo uma escolha que atravessaria toda a sua história: permanecer fiel à adoração estabelecida pelo ETERNO ou incorporar práticas religiosas que pertenciam às nações. O livro de Juízes apresenta esse processo de maneira recorrente. Israel abandonava o caminho recebido, servia aos deuses dos povos ao redor, sofria as consequências de sua infidelidade e, posteriormente, clamava ao ETERNO por restauração (Juízes 2:11-19)

Durante a monarquia, esse afastamento deixou de ser apenas uma prática adotada por determinados indivíduos e passou a alcançar a própria estrutura religiosa do reino. Salomão permitiu que cultos associados a outros deuses fossem estabelecidos em Jerusalém (1 Reis 11:1-8). Posteriormente, Acaz introduziu práticas religiosas que não correspondiam ao modelo estabelecido para o culto do ETERNO (2 Reis 16:2-4), e Manassés levou essa corrupção ainda mais longe ao estabelecer altares e uma imagem de escultura dentro do próprio ambiente do Templo (2 Reis 21:1-7)

Esse processo revela uma característica importante da idolatria: ela raramente começa com uma ruptura completa e repentina. Muitas vezes, ocorre pela incorporação gradual de elementos que anteriormente pertenciam a outros sistemas religiosos. O que antes era reconhecido como prática das nações passa a ser tolerado, depois incorporado e, finalmente, tratado como parte normal da vida religiosa. A fronteira entre a adoração determinada pelas Escrituras e os costumes religiosos ao redor vai sendo progressivamente apagada.

Foi justamente contra esse processo que os profetas levantaram sua voz. Elias confrontou Israel no monte Carmelo porque o povo havia chegado a uma situação de divisão entre diferentes formas de adoração (1 Reis 18:21). Isaías, Jeremias e outros profetas denunciaram a confiança depositada em objetos fabricados pelo homem, enquanto Ezequiel descreveu a presença de práticas abomináveis até mesmo dentro do ambiente relacionado ao Templo (Ezequiel 8:5-18). O problema havia ultrapassado os limites de uma prática particular e alcançado o próprio centro da vida religiosa nacional.

Entretanto, antes de avançarmos para os objetos que Israel utilizou indevidamente, é necessário compreender uma realidade que poderia parecer contraditória à primeira vista. A mesma Torá que estabelece limites rigorosos para as imagens também registra representações visuais determinadas pelo próprio ETERNO dentro do Tabernáculo. 

O Tabernáculo possuía uma riqueza visual que não surgiu da iniciativa artística de Israel. O ETERNO determinou a Moisés que fossem feitos dois querubins de ouro sobre o propiciatório da arca da aliança (Êxodo 25:18-22). Querubins também deveriam ser representados nas cortinas do Tabernáculo e no véu que separava o Santo dos Santos (Êxodo 26:1,31). Portanto, a existência de uma representação não constituía, por si só, uma transgressão. 

A presença dos querubins sobre a arca exige cuidado para que não se estabeleça uma comparação inadequada com práticas religiosas posteriores. É verdade que a arca ocupava uma posição central no culto de Israel e que havia momentos em que o povo se prostrava diante dela. Contudo, a razão de sua presença no culto não nasceu de uma iniciativa humana. A própria arca, o propiciatório, os querubins, sua localização e sua finalidade foram estabelecidos pelo ETERNO (Êxodo 25:10-22). 

O elemento decisivo está na autorização. No caso da arca, não foi Israel quem decidiu que uma representação deveria fazer parte da adoração. O ETERNO determinou sua construção e definiu sua finalidade. Os querubins não foram introduzidos como objetos de devoção escolhidos pelo povo, mas como componentes de uma estrutura que o próprio ETERNO havia ordenado. 

No Tabernáculo, essas três coisas estão claramente presentes. A representação foi ordenada, sua localização foi determinada e sua finalidade foi estabelecida. Quando passamos para representações religiosas criadas posteriormente, essa autorização precisa ser demonstrada a partir das Escrituras, e não presumida pela semelhança de função que uma tradição religiosa atribui ao seu objeto. 

Nesse desenvolvimento histórico, outro episódio merece atenção especial porque estabelece uma distinção que será fundamental para todo o restante deste estudo. Trata-se da serpente de bronze. Ela havia sido produzida no deserto dentro de uma circunstância específica da jornada de Israel e estava relacionada à cura daqueles que haviam sido mordidos pelas serpentes (Números 21:8-9). Durante aquele episódio, o objeto cumpriu uma finalidade determinada. Entretanto, séculos depois, a serpente ainda permanecia entre os objetos preservados por Israel.

O tempo passou, porém, e a serpente permaneceu entre os objetos preservados por Israel. O problema apareceu quando o povo passou a queimar incenso diante dela. O rei Ezequias, em sua reforma, destruiu a serpente e a chamou de Neustã, porque ela havia se tornado objeto de veneração religiosa (2 Reis 18:4)

Ezequias removeu um objeto que fazia parte da própria história religiosa de Israel porque sua utilização havia adquirido uma finalidade que não correspondia mais àquela para a qual havia sido estabelecido. Um objeto pode possuir uma história legítima e, ainda assim, adquirir posteriormente uma função religiosa diferente. 

A reforma de Ezequias não se limitou à serpente de bronze. O rei quebrou estátuas, cortou os bosques, procurando retirar de Judá aquilo que havia sido incorporado à sua prática religiosa pecaminosa (2 Reis 18:4). A restauração da fidelidade envolvia eliminar aquilo que havia ocupado um lugar indevido na adoração.

Josias levaria essa reforma ainda mais longe. Depois que o Livro da Torá foi encontrado e lido diante dele, o rei percebeu a dimensão do afastamento de Judá e iniciou uma profunda purificação religiosa (2 Reis 22:8-13). Objetos, utensílios e estruturas relacionados a cultos estrangeiros foram retirados do Templo e destruídos. Altares e lugares de culto foram derrubados, e práticas que haviam sido incorporadas ao longo dos anos foram eliminadas (2 Reis 23:4-20).

O relato de Josias é especialmente relevante porque demonstra que a reforma religiosa não avaliava os objetos apenas por sua aparência ou por sua utilidade cultural. Havia objetos que possuíam significado religioso, mas justamente por isso precisavam ser eliminados quando estavam vinculados a práticas que contrariavam a Torá. A purificação do culto envolveu distinguir aquilo que pertencia à adoração estabelecida daquilo que havia sido introduzido posteriormente.

O mesmo princípio pode ser observado quando Ezequiel viu práticas religiosas estranhas sendo realizadas dentro do Templo. A questão não era simplesmente a presença de elementos visuais, o problema era que eles estavam integrados a práticas de culto que haviam corrompido o espaço destinado à adoração do ETERNO (Ezequiel 8:5-18).

Por isso, a idolatria não deve ser compreendida apenas como a fabricação de um objeto chamado de deus. Ela também envolve a atribuição de uma função religiosa indevida a algo criado. O objeto pode possuir beleza, valor histórico, associação com acontecimentos sagrados ou até mesmo uma origem inicialmente legítima. Nenhuma dessas características, isoladamente, determina sua legitimidade dentro da adoração.

A história de Israel mostra, assim, duas realidades que precisam ser mantidas juntas. De um lado, o ETERNO determinou representações visuais dentro do Tabernáculo e estabeleceu exatamente onde e para que elas seriam utilizadas. De outro, quando objetos passaram a receber uma função religiosa que não lhes havia sido atribuída, eles precisaram ser removidos, mesmo quando possuíam uma história relacionada à própria fé de Israel. 

A experiência de Israel também mostra que a idolatria podia atingir diferentes níveis da sociedade. Não era apenas uma questão de indivíduos isolados que possuíam objetos particulares. Reis podiam introduzir práticas religiosas, sacerdotes podiam participar delas, estruturas oficiais podiam ser contaminadas e o próprio Templo podia ser afetado. Por isso, as reformas religiosas descritas nos livros dos Reis tiveram caráter abrangente: era necessário retirar os elementos que haviam sido incorporados à vida nacional.

Essa realidade ajuda a compreender também o caminho que levou Judá ao exílio. A queda de Jerusalém não foi apresentada pelas Escrituras como consequência de uma única transgressão. O povo havia acumulado décadas de desobediência, rejeitado as advertências dos profetas e incorporado práticas que contrariavam a aliança (2 Reis 24:3-4; 2 Crônicas 36:14-21). A idolatria fazia parte desse processo de afastamento.  

Depois do exílio, a comunidade voltou a dar atenção especial à Torá. Esdras leu publicamente o Livro da Lei, e o povo foi instruído novamente acerca de seus mandamentos (Neemias 8:1-8). A experiência do exílio havia demonstrado, de maneira dolorosa, o resultado de permitir que a fidelidade ao ETERNO fosse substituída por práticas religiosas estranhas à aliança. 

A Escritura, portanto, mostra que quando o ETERNO deseja que uma representação faça parte do ambiente de culto, Ele próprio determina sua existência e finalidade. Não encontramos Israel criando livremente representações de personagens santos para depois incorporá-las à devoção. Os querubins do Tabernáculo foram ordenados pelo próprio ETERNO; sua presença não nasceu de uma tradição posterior desenvolvida pelo povo. 

Com isso, o critério estabelecido pelas Escrituras se torna claro: a existência de uma imagem não determina, por si só, sua legitimidade ou ilegitimidade. É necessário considerar sua origem, sua finalidade e, sobretudo, a função que ela exerce dentro da prática religiosa.

A história de Israel demonstra como eram entendidas as representações visuais. No Tabernáculo, elas foram estabelecidas pelo próprio ETERNO e submetidas a uma finalidade específica. A serpente de bronze, por outro lado, tornou-se um problema quando recebeu uma função religiosa que não lhe havia sido atribuída. As reformas de Ezequias e Josias confirmam esse princípio ao removerem aquilo que havia sido incorporado indevidamente à adoração.

Assim, o limite bíblico não está na capacidade de representar, mas na passagem da representação para uma função devocional que o ETERNO não estabeleceu. É esse critério que deverá orientar a análise das tradições religiosas posteriores: quem estabeleceu a representação, para qual finalidade e, principalmente, o que as pessoas fazem diante dela?

Com esse fundamento, a questão das imagens pode ser analisada sem condenar a arte em si e sem atribuir automaticamente idolatria a quem possui uma representação. A própria Escritura nos ensinou a distinguir entre aquilo que foi determinado para compor um ambiente e aquilo que passou a ocupar um lugar dentro da devoção. É essa distinção que encerra a experiência de Israel e conduz naturalmente à próxima etapa deste estudo.



Seja iluminado!!!

- Salmos 119:130 - 



Leia a continuação clicando aqui:  https://www.defesadatora.org/2026/08/as-imagens-religiosas-na-igreja.html







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