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O Tesouro, a Pérola e a Rede

 Por Cleiton Gomes


A parábola do tesouro escondido, da pérola de grande valor e da rede dos peixes aparece dentro de uma sequência em que Yeshua anunciava o Reino dos Céus diante de pessoas que conheciam as Escrituras (Mateus 13:44-51). Muitos estavam familiarizados com a Torá, com os Profetas e com os Salmos, mas essa familiaridade não significava necessariamente discernimento sobre aquilo que estava acontecendo diante de seus olhos. 

Yeshua havia acabado de explicar aos discípulos que alguns viam sem perceber e ouviam sem compreender, enquanto outros recebiam entendimento acerca dos mistérios do Reino. Essa declaração prepara o caminho para compreender por que algo tão valioso poderia estar diante de muitos sem ser reconhecido. 

Essa declaração prepara o caminho para compreender o tesouro e a pérola. O tesouro já estava escondido no campo quando foi encontrado, e a pérola já existia antes de ser reconhecida pelo comerciante. Em ambos os casos, aquilo que possuía grande valor não nasceu no momento em que alguém o descobriu. O tesouro já estava ali, e a pérola já estava nas mãos de alguém. A diferença estava naquele que finalmente conseguiu perceber o que outros, embora estivessem diante da mesma realidade, não haviam colocado no mesmo nível de importância. 

Essa perspectiva estabelece uma ligação profunda com o contexto em que Yeshua estava ensinando. Havia pessoas que possuíam as Escrituras, conheciam suas palavras, ouviam sua leitura e aguardavam as promessas nelas contidas. Entretanto, quando aquilo que as Escrituras anunciavam começou a ganhar realidade diante delas, nem todas reconheceram sua grandeza. O conhecimento estava presente, mas o discernimento não acompanhava necessariamente esse conhecimento. Era possível possuir o campo sem perceber que dentro dele havia um tesouro. 

É justamente aqui que a figura de Yeshua e a mensagem do Reino ganham força nessa leitura. Aquilo que estava sendo apresentado não era uma novidade desligada daquilo que Israel havia recebido, mas uma realidade há muito aguardada. Muitos profetas e justos desejaram ver e ouvir aquilo que os discípulos estavam vendo e ouvindo, mas não tiveram essa experiência. Agora, diante de Yeshua, aquilo que durante gerações havia sido esperado estava sendo manifestado, mas sua grandeza não resplandecia igualmente aos olhos de todos. 

O campo, nessa perspectiva, torna-se uma imagem particularmente expressiva. Seu proprietário já possuía aquilo que outro homem consideraria digno de abandonar tudo para adquirir. Ele tinha o campo, mas aparentemente não reconhecia no que estava oculto nele um valor capaz de reorganizar sua vida. Continuava com aquilo que já fazia parte de sua realidade, enquanto outro, ao descobrir o tesouro, percebeu que havia encontrado algo superior a tudo aquilo que anteriormente ocupava suas prioridades. 

A mesma dinâmica aparece na pérola. Ela já estava na posse de alguém antes de ser adquirida pelo comerciante que reconheceu seu valor extraordinário. Aquele que a possuía podia negociá-la como parte de sua atividade, enquanto aquele que a encontrou percebeu nela algo que ultrapassava tudo o que já havia procurado. A diferença não estava na pérola, mas na percepção de seu valor. Um se desfez dela; o outro reorganizou tudo o que possuía para tê-la. 

Essa é uma das grandes forças da parábola: é possível possuir algo precioso sem tratá-lo como prioridade. Isso alcança diretamente a realidade daqueles que conheciam as Escrituras, mas não discerniam sua profundidade. O conhecimento pode permanecer presente enquanto outras preocupações ocupam progressivamente o centro da vida. A pessoa pode continuar ouvindo, estudando e até falando sobre a Palavra, mas permitir que trabalho, patrimônio, relacionamentos, projetos, ambições e preocupações materiais ocupem um espaço cada vez maior em seu coração.

Essa realidade encontra paralelo na parábola do semeador, quando a semente lançada entre os espinhos cresce, mas é sufocada pelos cuidados deste mundo, pela sedução das riquezas e por outras coisas que passam a disputar sua primazia. O problema não é necessariamente que essas coisas existam, mas que elas ocupem um lugar capaz de sufocar aquilo que já havia sido recebido. O homem não perdeu a semente porque nunca a teve; ela estava nele, mas outras prioridades cresceram ao seu redor até impedir que produzisse fruto. 

O tesouro e a pérola apresentam o movimento contrário. Em vez de permitir que as coisas da vida sufoquem aquilo que possui valor eterno, o homem que encontra o tesouro reorganiza aquilo que possui à luz da descoberta. O comerciante faz o mesmo. Eles não precisam concluir que todos os outros bens são maus, inúteis ou indignos de serem possuídos. Apenas compreenderam que existe algo cuja importância é tão superior que tudo aquilo que antes ocupava uma posição elevada passa a ser colocado em segundo plano.

Essa é a verdadeira lição das parábolas. Yeshua não está ensinando que o homem deve abandonar irresponsavelmente sua vida, desprezar o trabalho, rejeitar seus recursos ou deixar de cuidar das necessidades cotidianas. O que muda é a posição que cada coisa ocupa quando o verdadeiro valor do Reino é reconhecido. Ele continua vivendo, trabalhando, cuidando dos seus e administrando aquilo que possui, mas passa a compreender que nenhuma dessas coisas deve ocupar o lugar que pertence ao que realmente possui valor inestimável. 

O homem comprou o campo com os recursos que possuía, assim como o comerciante comprou a pérola com aquilo que tinha. Entretanto, essas compras não significam que o Reino dos Céus possa ser adquirido por meio de bens materiais, como se a salvação tivesse um preço que pudesse ser pago pelo esforço humano. O que Yeshua coloca em evidência é a hierarquia das coisas: eles descobriram algo que consideraram tão superior que estavam dispostos a colocar em segundo plano aquilo que anteriormente ocupava um lugar elevado em suas vidas. A venda de tudo não representa o preço do Reino, mas a consequência de reconhecer o seu valor. 

Isso também explica por que a parábola pode tocar tão profundamente a experiência humana. Cada pessoa constrói uma hierarquia ao longo da vida. Algumas coisas tornam-se sonhos, outras conquistas, outras responsabilidades, outras fontes de segurança. Trabalhamos por aquilo que desejamos alcançar e protegemos aquilo que julgamos precioso. Mas existe um momento em que o homem pode encontrar algo que o obriga a reconsiderar toda essa escala, não porque tudo o que construiu perdeu seu valor, mas porque finalmente encontrou aquilo diante do qual cada coisa pode ser colocada em seu devido lugar. 

O ponto não está em conhecer as Escrituras, mas em discernir aquilo que elas revelam quando seu conteúdo se manifesta diante de nós. Alguém pode estudar profundamente, conhecer termos, interpretar textos, frequentar ambientes religiosos e ainda permanecer incapaz de perceber o tesouro. O conhecimento pode estar nas mãos sem estar no coração. Pode haver familiaridade com a Palavra sem que exista discernimento suficiente para compreender aquilo que ela está revelando. 

Por isso, Yeshua declara bem-aventurados os olhos que veem e os ouvidos que ouvem. A questão não é apenas possuir olhos e ouvidos, mas perceber e compreender. Muitos haviam recebido as Escrituras, mas agora os discípulos estavam diante de uma realidade que profetas e justos haviam desejado contemplar. O tesouro estava diante deles, mas somente aqueles que conseguiam discernir seu valor poderiam compreender a grandeza daquele momento. 

É depois dessa sequência que Yeshua apresenta a rede lançada ao mar. Ela recolhe peixes de toda espécie e, quando está cheia, é levada à praia para que ocorra a separação entre os bons e os ruins. A imagem amplia o que foi apresentado no tesouro e na pérola: existe um Reino que agora está sendo anunciado e discernido, mas sua história não termina na percepção presente. Haverá uma consumação na qual aquilo que hoje permanece oculto aos olhos de muitos será acompanhado pelo juízo. 

A sequência revela, então, um movimento preciso: alguns possuem o conhecimento, mas não discernem seu valor; outros recebem discernimento e reorganizam suas prioridades; finalmente, a rede apresenta a separação. O tesouro mostra aquilo que estava oculto. A pérola mostra aquilo que foi reconhecido como incomparavelmente precioso. A rede mostra que essa resposta não é indiferente, pois haverá um momento em que serão manifestados aqueles que realmente corresponderam ao Reino. 

A grande advertência dessas parábolas não está em possuir bens, trabalhar, construir uma família ou cuidar das responsabilidades da vida, mas em permitir que essas coisas ocupem o lugar que pertence ao tesouro depois que ele foi reconhecido. O que antes ocupava o primeiro lugar passa a encontrar seu devido lugar; aquilo que era prioridade torna-se secundário; e aquilo que parecia ser apenas mais uma realidade entre tantas revela-se como o bem que deve orientar todas as demais escolhas.

No fim, a rede nos lembra que essa percepção possui consequências eternas. Hoje, ainda existe a possibilidade de olhar para o campo e não perceber o tesouro, de possuir a pérola e não reconhecer sua grandeza, de ouvir a Palavra e permitir que outras prioridades a sufoquem. Mas haverá um momento em que a rede chegará à praia. Então será revelado não apenas aquilo que alguém conhecia, mas aquilo que verdadeiramente reconheceu como precioso e o lugar que esse reconhecimento ocupou em sua vida. 


Seja iluminado!!!
- Salmos 119:130 -



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