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As mulheres devem ficar caladas no culto?

Por Cleiton Gomes

As reuniões dos primeiros discípulos de Yeshua possuíam uma dinâmica distinta daquela observada em muitos cultos realizados nos dias atuais. A comunidade não se reunia simplesmente para ouvir uma única pessoa falar enquanto os demais permaneciam como espectadores. 

As cartas apostólicas mostram reuniões nas quais diferentes pessoas participavam da edificação coletiva, trazendo salmos, ensinamentos, revelações e manifestações proféticas. Em Corinto, porém, essa participação estava produzindo situações que exigiam orientação. 

A partir do capítulo 12, Paulo trata dos dons espirituais e de sua finalidade dentro da comunidade. No capítulo 13, coloca o amor no centro dessa discussão, demonstrando que possuir um dom não significava possuir liberdade para utilizá-lo em benefício próprio. O capítulo 14 transforma esse princípio em orientações práticas para a assembleia, concentrando-se especialmente na profecia e na maneira como as manifestações deveriam ocorrer.

Esse contexto se torna ainda mais significativo quando lembramos que, poucos capítulos antes, o próprio Paulo havia mencionado mulheres orando e profetizando: “Mas toda mulher que ora ou profetiza...” (1 Coríntios 11:5). A própria carta, portanto, apresenta mulheres participando verbalmente da vida espiritual da comunidade. Essa informação é fundamental para determinar o alcance da instrução que Paulo apresentará posteriormente. 

É nesse contexto que aparece a instrução dirigida às mulheres: “As vossas mulheres estejam caladas nas congregações; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na congregação” (1 Coríntios 14:34-35). 

O termo grego traduzido por “vergonhoso” é αἰσχρόν (aischron), palavra que pode expressar aquilo que é vergonhoso, indecoroso, desonroso ou impróprio. No contexto da passagem, porém, não é necessário entender que Paulo considerava a fala feminina vergonhosa por sua própria natureza. O termo está relacionado à conduta da mulher dentro da assembleia. 

Em seguida, Paulo acrescenta: “E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos”. Perguntar para aprender não constitui, por si só, uma atitude indecorosa, mesmo quando uma pergunta é feita em voz alta. O que precisa ser considerado é a maneira como a participação deveria ocorrer naquela assembleia. 

Paulo havia estabelecido uma sequência para as manifestações: enquanto um falava, os demais deveriam ouvi-lo, e até mesmo um profeta deveria interromper sua fala quando outro recebesse uma revelação. Dentro dessa ordem, qualquer intervenção que rompesse a sequência estabelecida poderia comprometer o propósito da reunião. 

Há, porém, uma particularidade no texto que merece atenção. Paulo emprega a expressão “suas próprias mulheres” e, imediatamente depois, orienta: “interroguem em casa a seus próprios maridos”. Essa relação entre esposa e marido parece indicar que a instrução tinha em vista especialmente mulheres casadas. O texto não menciona solteiras, viúvas ou outras mulheres da assembleia, nem apresenta uma instrução semelhante dirigida a elas. 

Também não dispomos de informações suficientes para reconstruir exatamente como essas mulheres estavam intervindo. Paulo não afirma que elas gritavam, falavam em tom de arrogância ou interrompiam deliberadamente aqueles que ensinavam. Essas são possibilidades interpretativas, mas não informações explicitamente fornecidas pela passagem. 

O que podemos afirmar é que Paulo estabeleceu uma restrição específica para aquela situação, relacionando o silêncio à sujeição e orientando as mulheres que desejassem aprender alguma coisa a consultar seus próprios maridos em casa. 

Nesse ponto, surge uma questão importante: o que Paulo quis dizer ao afirmar que essa sujeição era ordenada pela Lei? Ele não especifica qual passagem da Torá tinha em mente. Também não é possível determinar com absoluta segurança se estava evocando um mandamento específico ou um princípio mais amplo de ordem e submissão presente nas Escrituras. 

É possível, ainda, que a referência à “Lei” esteja relacionada a um princípio de ordem familiar e social de Corinto que, na compreensão de Paulo, estava em consonância com as Escrituras, sem necessariamente apontar para um mandamento específico da Torá. O texto, portanto, não nos permite identificar com certeza qual referência Paulo tinha em mente. 

A relação entre esposa e marido aparece, assim, associada à orientação dada às mulheres naquela assembleia. Paulo não apresenta o silêncio apenas como uma medida de organização da reunião, mas também o relaciona à posição que atribuía às mulheres em relação aos seus maridos dentro daquela estrutura. Isso ajuda a compreender por que, ao tratar do desejo de aprender, ele não determina simplesmente que as mulheres esperem outro momento, mas orienta que consultem seus próprios maridos em casa. 

Essa estrutura de submissão, porém, não deve ser automaticamente confundida com inferioridade. Dentro da linguagem bíblica, estar sujeito a uma autoridade não significa possuir menor valor ou dignidade. O próprio Paulo utiliza a relação entre o Messias e sua comunidade para expressar uma estrutura de submissão acompanhada de responsabilidade, amor e cuidado. A autoridade, portanto, não constitui autorização para desprezo, humilhação ou abuso. 

Outros registros das Escrituras confirmam que a mulher não era apresentada como espiritualmente incapaz de comunicar aquilo que havia recebido.  Ana é identificada como profetisa e falou a respeito da redenção que estava sendo realizada em Jerusalém (Lucas 2:36-38). Em Atos 21:9, Lucas registra que Filipe tinha quatro filhas virgens que profetizavam. Depois da ressurreição de Yeshua, as mulheres também receberam a incumbência de comunicar aos discípulos aquilo que haviam testemunhado (Mateus 28:1-10)

Esses registros não anulam a instrução dada por Paulo em Corinto, mas demonstram que a participação verbal feminina não pode ser tratada como uma impossibilidade espiritual ou como uma proibição universal. 

Dessa forma, 1 Coríntios 14:34-35 não deve ser transformado automaticamente em uma regra segundo a qual toda mulher, em qualquer reunião e em qualquer circunstância, deveria permanecer em silêncio. Paulo estava tratando da maneira como a assembleia de Corinto deveria funcionar e, dentro desse contexto, estabeleceu uma restrição específica às mulheres a quem se dirigia. A própria carta demonstra que mulheres podiam orar e profetizar, enquanto o capítulo 14 estabelece que toda manifestação deveria respeitar a ordem da reunião. 

A conclusão do próprio capítulo estabelece o princípio que orienta toda essa regulamentação: “faça-se tudo com decência e ordem” (1 Coríntios 14:40). É nesse princípio que a instrução dirigida às mulheres deve ser compreendida. Naquele contexto específico, elas deveriam calar-se e levar suas questões para casa. Isso não transforma o silêncio circunstancial ordenado por Paulo em uma proibição permanente da participação feminina, mas demonstra que, na assembleia dos primeiros discípulos, toda manifestação estava submetida à ordem, à edificação e ao momento apropriado. 


Seja iluminado!!!
- Salmos 119:130 -





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