Por Cleiton Gomes
Uma das questões mais debatidas entre estudiosos das Escrituras é a época em que Jó viveu. Curiosamente, o livro não informa explicitamente sua data, o nome do faraó de sua época, o nome de reis contemporâneos ou qualquer acontecimento histórico que permita uma identificação imediata do período. Ainda assim, a própria narrativa contém diversos indícios internos que possibilitam uma reconstrução histórica bastante consistente.
Ao analisar cuidadosamente os costumes, a estrutura familiar, a economia, a longevidade e o contexto religioso descritos no livro, muitos pesquisadores concluem que Jó provavelmente viveu durante a era dos patriarcas, próxima ou anterior à época de Abraão.
O primeiro elemento que chama atenção é a ausência completa de qualquer referência à nação de Israel. O livro não menciona Abraão, Isaque, Jacó, as doze tribos, o êxodo, Moisés, a aliança do Sinai, Jerusalém, o sacerdócio levítico ou qualquer aspecto característico da identidade israelita. Considerando que esses temas ocupam posição central em praticamente toda a literatura bíblica posterior, seu silêncio é extremamente significativo.
Se Jó tivesse vivido após a formação da nação de Israel, seria natural encontrar ao menos alguma referência aos acontecimentos mais importantes da história do povo. Entretanto, o livro apresenta um cenário completamente diferente. O relacionamento com o ETERNO ocorre de forma semelhante à observada nos relatos de Noé, Abraão, Isaque e Jacó, antes da existência de uma estrutura nacional organizada.
Outro indício importante é a função sacerdotal exercida pelo próprio Jó. O texto afirma que ele oferecia holocaustos em favor de seus filhos:
"Levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles" (Jó 1:5).
Essa prática lembra diretamente os patriarcas. Antes do estabelecimento do sacerdócio levítico, os chefes de família atuavam como sacerdotes de seus próprios lares. Noé ofereceu sacrifícios após o dilúvio. Abraão edificou altares e apresentou ofertas. Isaque e Jacó fizeram o mesmo.
Após a entrega da Torá no Sinai, entretanto, o sistema sacrificial passou a ser regulamentado e centralizado. Se Jó tivesse vivido após Moisés, seria estranho vê-lo exercendo funções sacerdoticas sem qualquer menção ao sacerdócio levítico.
A riqueza de Jó também se assemelha à dos patriarcas. O livro mede sua prosperidade principalmente pelo número de rebanhos, servos e animais:
"Sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas."
Essa descrição corresponde exatamente ao padrão econômico observado em Abraão, Isaque e Jacó. A riqueza era avaliada em termos de gado, servos e propriedades rurais. Não há referência a impérios, sistemas monetários desenvolvidos ou estruturas urbanas típicas de períodos posteriores.
A longevidade de Jó constitui outro argumento relevante. Após sua restauração, o texto afirma:
"Depois disto, viveu Jó cento e quarenta anos."
Importa observar que esses cento e quarenta anos referem-se apenas ao período posterior às provações. Isso significa que sua idade total provavelmente ultrapassou duzentos anos.
Essa longevidade aproxima Jó dos patriarcas. Abraão viveu cento e setenta e cinco anos. Isaque viveu cento e oitenta anos. Jacó viveu cento e quarenta e sete anos. Após a época patriarcal, entretanto, a expectativa de vida registrada nas Escrituras diminui gradualmente.
Outro detalhe frequentemente ignorado encontra-se na estrutura política do livro. Não aparecem reis governando grandes territórios. Jó parece atuar como uma espécie de patriarca local, respeitado por sua sabedoria, riqueza e influência. Esse cenário combina muito mais com o mundo tribal dos patriarcas do que com os períodos monárquicos posteriores.
A localização geográfica também merece atenção. Jó vivia na terra de Uz. A identificação exata desse território permanece debatida, mas a maioria das propostas o situa em regiões ao sul ou sudeste da terra de Canaã, próximas de Edom, Arábia ou do deserto sírio.
Curiosamente, essas mesmas regiões aparecem frequentemente associadas aos descendentes de Sem, Arã e Esaú. O ambiente descrito harmoniza-se perfeitamente com o contexto geográfico dos patriarcas.
Além disso, os nomes dos personagens possuem características muito antigas. Elifaz, Bildade, Zofar e Eliú apresentam formas linguísticas compatíveis com o segundo milênio antes da era comum. Alguns deles possuem conexões com clãs conhecidos da região edomita.
Um dos argumentos mais interessantes envolve a ausência de qualquer referência à Torá escrita. Durante os longos debates entre Jó e seus amigos, surgem discussões sobre justiça, pecado, sofrimento, arrependimento e relacionamento com o ETERNO. Contudo, ninguém cita a Torá, Moisés ou as estipulações da aliança do Sinai.
Caso o livro estivesse retratando um período posterior ao êxodo, seria natural que essas questões fossem analisadas à luz da legislação mosaica. O silêncio reforça a impressão de que os acontecimentos ocorreram antes da entrega da Torá.
Entretanto, nem todos os estudiosos concordam que Jó viveu antes de Abraão. Alguns defendem que ele foi contemporâneo dos patriarcas ou até mesmo posterior. O principal argumento desses pesquisadores é que a ausência de referências a Israel não necessariamente prova uma data antiga. O autor poderia simplesmente ter escolhido concentrar-se em um personagem não israelita.
De fato, Jó não era israelita. Isso é praticamente consenso entre os estudiosos. O livro apresenta um homem justo pertencente a uma nação estrangeira, demonstrando que o ETERNO não limitava seu relacionamento com a humanidade apenas à linhagem de Abraão.
Essa observação possui enorme importância teológica. O livro mostra que o conhecimento do ETERNO existia fora dos limites de Canaã e antes mesmo do surgimento formal da nação de Israel.
Do ponto de vista da literatura judaica, diversas tradições antigas tentaram identificar Jó com personagens conhecidos da época patriarcal. Algumas tradições rabínicas o colocaram nos dias de Abraão. Outras o situaram durante o período de Jacó. Houve ainda quem sugerisse que teria vivido na época de Moisés. A diversidade dessas opiniões demonstra que a questão já era debatida na antiguidade.
Apesar das divergências, a soma das evidências aponta fortemente para um período patriarcal. O modelo familiar, a função sacerdotal exercida pelo chefe da casa, a riqueza baseada em rebanhos, a longevidade excepcional, a ausência da Torá mosaica, o contexto tribal e a localização geográfica convergem para essa conclusão.
Talvez a lição mais interessante seja que o livro de Jó foi deliberadamente construído para transcender fronteiras nacionais. Diferentemente de muitos livros bíblicos centrados em Israel, Jó apresenta questões universais: sofrimento, justiça, fé, esperança e redenção. Seu protagonista não pertence à descendência de Abraão, não vive em Canaã e não faz parte da história nacional israelita. Ainda assim, conhece o ETERNO, busca a justiça e espera pela redenção futura.
Esse aspecto prepara terreno para uma das declarações mais impressionantes do livro:
"Eu sei que o meu Redentor vive."
Mesmo vivendo provavelmente antes do estabelecimento da nação de Israel, Jó demonstra esperança em um Redentor futuro. Isso revela que a expectativa messiânica não surgiu apenas com os profetas posteriores. A esperança na intervenção redentora do ETERNO já estava presente em tradições extremamente antigas da humanidade.
Assim, embora não seja possível determinar com absoluta certeza a data exata da vida de Jó, as evidências bíblicas e históricas sugerem fortemente que ele viveu durante a era patriarcal, provavelmente próximo do período de Abraão, Isaque e Jacó. Sua história preserva um testemunho singular de fé, mostrando que muito antes da formação de Israel já existiam homens que conheciam o ETERNO, confiavam em Sua justiça e aguardavam a redenção prometida.
Seja iluminado!!!
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