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A Plenitude da Graça Conforme as Escrituras

 Por Cleiton Gomes


A compreensão da graça é fundamental para entender a relação do ser humano com o ETERNO. Ela aparece em orações, cânticos, ensinamentos e testemunhos, geralmente associada ao favor, à misericórdia e à bondade do ETERNO. Ainda assim, quanto mais se observa a maneira como as Escrituras apresentam essa realidade, mais profunda se torna a pergunta: quando começou a graça? Ela surgiu em determinado momento da história? Está relacionada apenas à salvação? Ou sempre esteve presente na maneira como o ETERNO se relaciona com a humanidade?

A resposta começa a surgir quando voltamos às primeiras páginas das Escrituras. No relato do dilúvio, encontramos uma afirmação breve, mas significativa: “Noé, porém, encontrou graça aos olhos do ETERNO” (Gênesis 6:8). A narrativa ainda está distante dos acontecimentos relacionados a Yeshua, e mesmo assim a graça já aparece como realidade presente na relação entre o ser humano e o Criador. Não se trata de uma ideia desenvolvida posteriormente pelos escritos apostólicos, mas de uma expressão que já fazia parte da história bíblica desde seus primeiros períodos. 

Essa percepção ganha maior profundidade quando Moisés aparece no relato do Êxodo. Em determinado momento, ele pede que continue encontrando graça diante do ETERNO (Êxodo 33:12,13,17). Pouco depois, ocorre uma das declarações mais importantes para compreender o significado dessa graça. O ETERNO se revela como “misericordioso e compassivo, tardio em irar-se e grande em graça e verdade” (Êxodo 34:6). A graça, aqui, não aparece apenas como algo que o ser humano recebe. Ela está relacionada ao próprio caráter daquele que concede. 

Os Salmos desenvolvem essa mesma compreensão. O salmista afirma que a graça acompanha os que confiam no ETERNO, pede que Sua graça seja lembrada e celebra repetidamente Sua bondade. No Salmo 136, a expressão “porque a sua graça dura para sempre” percorre toda a composição. A linguagem bíblica estabelece, assim, uma continuidade: a graça não é apresentada como uma realidade ocasional, limitada a uma determinada geração ou reservada para um período específico da história. Ela acompanha a relação do ETERNO com Seu povo. 

Essa sequência prepara o leitor para compreender uma afirmação particularmente significativa do Evangelho de João. Ao falar sobre Yeshua, João escreve: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória… cheio de graça e verdade” (João 1:14). A escolha dessas palavras merece atenção. Séculos antes, Moisés havia registrado a revelação do ETERNO como alguém “cheio de graça e verdade”. Agora, João utiliza uma expressão correspondente ao apresentar Yeshua. 

A narrativa continua dizendo: “E todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça sobre graça” (João 1:16). Depois prossegue: “Porque a Torá foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Yeshua HaMashiach” (João 1:17). Essa afirmação ganha maior clareza quando considerada dentro da sequência apresentada por João. 

A expressão “plenitude” conduz a uma compreensão mais ampla. João não está simplesmente apresentando a existência da graça, mas descrevendo sua manifestação de maneira abundante e completa. Aquilo que já podia ser reconhecido na história das Escrituras agora se torna visível de forma singular na manifestação de Yeshua. A questão, então, não é simplesmente saber quando a graça começou, mas compreender o que João pretende revelar sobre sua manifestação em Yeshua. Essa pergunta nos conduz novamente à Torá, cuja função aparece de maneira própria dentro dessa história de revelação.

A Torá possui uma função própria. Ela apresenta instrução, estabelece mandamentos, revela princípios de justiça e ensina ao ser humano como caminhar diante do ETERNO. Quando o pecado aparece na narrativa bíblica, a existência de uma instrução divina permite compreender o que significa transgredir. A graça passa a ser percebida não como ausência de direção, mas como a misericórdia oferecida ao ser humano dentro de uma relação na qual existe uma vontade divina conhecida. 

Essa relação se torna ainda mais clara quando chegamos aos ensinamentos de Yeshua. Sua mensagem não apresenta a misericórdia como indiferença diante da maneira como o ser humano vive. Ao encontrar pessoas em situações de pecado, Yeshua demonstra compaixão, oferece perdão e, ao mesmo tempo, conduz à transformação. A conhecida expressão “vai e não peques mais” (João 8:11) reúne essas duas dimensões em uma única orientação. A misericórdia alcança a pessoa onde ela está, mas a experiência dessa misericórdia aponta para uma nova maneira de viver. 

A mesma ideia aparece nos escritos de Paulo. Em Efésios 2:8 e 9, ele afirma que a salvação é pela graça mediante a fé e que ela não procede das obras humanas, para que ninguém se glorie. Porém, imediatamente depois, ele afirma que somos feitos para boas obras, as quais o ETERNO preparou para que andássemos nelas (Efésios 2:10). A sequência é reveladora. A graça não termina na salvação; ela produz uma vida transformada.

A redenção precede a instrução, e a obediência aparece depois da libertação como parte da nova vida recebida. Esse princípio pode ser percebido de maneira muito concreta na própria libertação de Israel do Egito. Israel não foi retirado da escravidão porque já tivesse apresentado méritos suficientes para merecer a redenção. O ETERNO ouviu seu clamor, lembrou-se de Sua aliança e os conduziu para fora do Egito antes que recebessem a revelação da Torá no Sinai (Êxodo 2:23-25; 12:31-42)

A sequência dos acontecimentos é significativa: primeiro veio a libertação, depois veio a instrução sobre como viver. Após atravessar o mar e deixar para trás a condição de escravidão (Êxodo 14:21-31), Israel chegou ao Sinai, onde Moisés recebeu a Torá e o povo foi conduzido a uma vida de obediência (Êxodo 19:1-6; 20:1-17; 24:3-8)

A obediência, portanto, não foi apresentada como o preço para sair do Egito, mas como o caminho de vida daquele que já havia sido libertado. A própria narrativa do Êxodo oferece, assim, uma imagem concreta da relação entre graça e obediência: a redenção precede a entrega da instrução, e a liberdade recebida conduz a uma nova maneira de viver.

É nesse ponto que a declaração de Paulo em Romanos 3:31 adquire especial importância: “Anulamos, pois, a Torá pela fé? De maneira nenhuma! Antes, estabelecemos a Torá”. Depois de apresentar a salvação pela fé, Paulo prossegue mostrando a relação dessa fé com a Torá.

A plenitude da graça pode ser compreendida, enfim, naquilo que acontece depois da libertação. Israel não deixou o Egito para permanecer sem direção, mas para aprender a viver como povo livre diante do ETERNO. A graça possui essa mesma profundidade: ela alcança o ser humano em sua necessidade, concede a redenção e inaugura uma nova caminhada. Em Yeshua, essa realidade encontra sua plenitude, e a salvação deixa de ser compreendida apenas como aquilo de que o ser humano foi liberto para também revelar a vida para a qual foi chamado. A graça, então, não permanece apenas como um presente recebido, mas passa a moldar a própria existência daquele que foi alcançado por ela. 



Seja iluminado!!!
- Salmos 119:130 -






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