Por Cleiton Gomes
A expressão “não toqueis nos meus ungidos” tornou-se, em muitos ambientes religiosos, uma espécie de proteção verbal concedida a líderes considerados escolhidos pelo ETERNO. Frequentemente, ela é utilizada para afirmar que ninguém deve questionar, corrigir ou confrontar determinado pastor, pregador ou dirigente, como se a posição ocupada por essa pessoa a colocasse acima de qualquer avaliação. Entretanto, para compreender o que as Escrituras realmente ensinam, é necessário começar pelo próprio texto que deu origem a essa expressão e observar como a Bíblia trata aqueles que são chamados de ungidos.
A expressão aparece no Salmo 105:15: “Não toqueis nos meus ungidos, nem maltrateis os meus profetas”. O versículo, considerado isoladamente, não informa imediatamente quem são esses ungidos. Para identificá-los, é necessário acompanhar o desenvolvimento do próprio Salmo.
Nos versículos anteriores, o salmista relembra a história dos patriarcas e menciona Abraão, Isaque e Jacó, recordando sua peregrinação entre diferentes povos e a maneira como o ETERNO conduziu sua trajetória. É nesse contexto que aparece a expressão “meus ungidos”. O texto, portanto, não está introduzindo uma categoria permanente de homens que não poderiam ser questionados. Está relembrando personagens específicos dentro da história da aliança.
A própria vida desses patriarcas impede que se atribua à expressão o sentido de intocabilidade. Abraão tomou decisões equivocadas, enfrentou conflitos e precisou lidar com as consequências de suas escolhas. Isaque também passou por situações de conflito, e Jacó atravessou um longo processo de transformação marcado por erros, conflitos familiares e confrontações. Nenhum deles foi apresentado como alguém incapaz de errar ou como uma pessoa que não pudesse ser confrontada. Ser chamado de ungido não retirou deles a condição humana nem os colocou acima da vontade do ETERNO.
Essa observação ganha ainda mais força quando avançamos para a história dos reis de Israel. Davi e Saul foram ungidos para exercer o governo sobre o povo, mas suas histórias mostram que a unção não funcionava como uma autorização para agir sem prestar contas. O caso de Saul é particularmente importante porque permite compreender o que Davi quis dizer quando se recusou a levantar a mão contra ele.
Em determinada ocasião, Davi teve a oportunidade de matar Saul, mas decidiu não fazê-lo. Ao falar sobre o rei, afirmou que não estenderia a mão contra o ungido do ETERNO (1 Samuel 24:6). A atitude de Davi não significava que Saul fosse moralmente irrepreensível ou que seus atos não pudessem ser avaliados. Davi reconhecia que não deveria tomar para si, por iniciativa própria, o lugar que havia sido estabelecido para Saul. Ele respeitou a posição do rei sem transformar esse respeito em aprovação de tudo o que Saul fazia.
A própria história de Saul confirma essa distinção. Embora tivesse sido ungido rei, Saul desobedeceu às instruções recebidas e foi confrontado por Samuel. Em 1 Samuel 15, Samuel declarou que Saul havia rejeitado a palavra do ETERNO e que, por isso, seu reinado seria removido. O homem que havia sido ungido não estava acima da Palavra que deveria obedecer. Sua unção não impediu a repreensão, nem anulou as consequências de sua desobediência.
A história de Davi apresenta a mesma questão por outro ângulo. Davi também foi ungido e recebeu autoridade sobre Israel. Quando pecou no episódio envolvendo Urias e Bate Seba, porém, o profeta Natã não interpretou sua posição como motivo para permanecer em silêncio. Natã foi até o rei e expôs seu pecado diretamente: “Tu és este homem” (2 Samuel 12:7). Davi não perdeu sua condição de rei por ter sido confrontado, e Natã não deixou de respeitar sua posição por ter denunciado seu pecado. O episódio mostra que autoridade e correção não são conceitos incompatíveis.
Essa sequência conduz naturalmente às palavras de Yeshua em Mateus 7:1 a 5. O ensino sobre a trave e o argueiro é frequentemente utilizado como se proibisse qualquer avaliação da conduta de outra pessoa. Yeshua, porém, apresenta outra questão. Ele fala daquele que percebe o argueiro no olho do irmão enquanto possui uma trave no próprio olho. O problema não está simplesmente em reconhecer o erro alheio, mas em tentar corrigi-lo sem primeiro examinar a própria condição.
A própria conclusão da comparação esclarece o ensino. Yeshua não diz que o argueiro deve permanecer no olho do irmão. Ele orienta que primeiro seja retirada a trave do próprio olho, para que então seja possível enxergar claramente e retirar o argueiro do olho do irmão. A correção, portanto, não é abolida. O que é rejeitado é a postura hipócrita de quem deseja corrigir o outro sem permitir que a mesma verdade alcance a si próprio.
Esse princípio estabelece uma diferença importante entre correção e condenação. Corrigir alguém à luz das Escrituras não significa colocar-se acima dessa pessoa. Significa reconhecer que a mesma Palavra que examina sua vida também examina a vida do outro. Já a condenação hipócrita parte de uma posição de superioridade, como se aquele que aponta o erro estivesse livre de qualquer exame. Yeshua não oferece proteção para o erro, mas estabelece uma maneira justa de lidar com ele.
A partir daqui, a questão alcança diretamente a liderança religiosa. Se um líder ocupa uma função concedida pelo ETERNO, isso deve aumentar sua responsabilidade, e não diminuir sua prestação de contas. Sua posição merece respeito, mas sua posição não transforma suas palavras em Escritura nem seus atos em padrão absoluto. O líder continua precisando demonstrar fidelidade àquilo que ensina e pratica.
Essa compreensão também ajuda a estabelecer os limites da própria correção. O fato de um líder poder ser questionado não significa que qualquer acusação contra ele seja verdadeira ou legítima. As Escrituras também condenam a mentira, a falsa acusação, a maledicência e o testemunho injusto. Há uma diferença entre examinar uma conduta à luz da Palavra e atacar uma pessoa movido por ressentimento, inveja ou interesse pessoal. A correção bíblica exige verdade e justiça.
O respeito pela autoridade, dessa maneira, não deve ser confundido com submissão cega. Um discípulo pode reconhecer a função de um líder e, ao mesmo tempo, examinar aquilo que ele ensina. Isso pode ser visto na atitude dos bereanos, que receberam o ensino de Paulo, mas examinavam diariamente as Escrituras para verificar se aquilo que ouviam correspondia à verdade (Atos 17:11). O respeito pelo mensageiro não eliminou a responsabilidade de examinar a mensagem.
O verdadeiro perigo está justamente quando a expressão “não toqueis nos meus ungidos” passa a funcionar como uma barreira contra a própria Palavra. Nesse momento, o líder deixa de ser servo da revelação e passa a ocupar, na prática, uma posição acima dela. A comunidade deixa de perguntar “o que dizem as Escrituras?” e começa a perguntar “o que o meu líder disse?”. A autoridade que deveria apontar para o ETERNO passa a apontar para o próprio homem.
O verdadeiro líder não precisa ser protegido contra toda correção, porque sua autoridade não depende de ser considerado infalível. Ele precisa ser fiel. Sua grandeza não está em nunca ser questionado, mas em permanecer disposto a submeter-se à verdade quando é confrontado. Davi demonstrou isso ao reconhecer seu pecado diante de Natã. Saul, por outro lado, revelou o perigo de alguém tentar preservar sua posição enquanto sua obediência se deteriorava. A diferença entre ambos não estava simplesmente na existência de erros, mas na maneira como responderam diante da correção.
Assim, a expressão “não toqueis nos meus ungidos” não pode ser transformada em uma regra segundo a qual líderes religiosos jamais podem ser questionados. O respeito à autoridade continua sendo necessário, mas a autoridade permanece subordinada à verdade. Quem exerce liderança não recebe uma imunidade contra a correção. Recebe uma responsabilidade maior diante do ETERNO e, justamente por isso, deve estar disposto a ser examinado pela mesma Palavra que ensina aos demais.
Seja iluminado!!!
- Salmos 119:130 -
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