Por Cleiton Gomes
(Parte 1)
A presença de imagens de escultura nas antigas sociedades não pode ser compreendida apenas como uma expressão artística. Em grande parte das culturas do mundo antigo, a representação de seres humanos, animais, astros e divindades estava profundamente ligada à religião. Esculpir uma figura não significava somente produzir um objeto visualmente reconhecível, mas podia estabelecer uma relação entre o objeto e a realidade espiritual que ele pretendia representar.
Templos, altares e santuários eram frequentemente acompanhados por imagens diante das quais pessoas realizavam práticas religiosas, buscando proteção, bênçãos, respostas ou algum tipo de aproximação com aquilo que consideravam divino.
Esse ambiente religioso fazia parte do mundo no qual Israel surgiu como povo. As Escrituras apresentam repetidamente as nações ao redor de Israel como sociedades que serviam a diferentes deuses e utilizavam representações materiais em seus cultos. A questão não estava simplesmente na existência de esculturas como objetos produzidos pelas mãos humanas, mas na função religiosa que lhes era atribuída. A imagem passava a ocupar uma posição que ultrapassava sua condição material, tornando-se parte da relação de culto estabelecida entre o ser humano e a divindade que acreditava estar representada nela.
É justamente nesse contexto que a Torá estabelece uma ruptura. Quando o ETERNO entrega os mandamentos a Israel, a proibição contra imagens de escultura aparece diretamente associada à exclusividade da adoração. O segundo mandamento declara: “Não farás para ti imagem de escultura” (Êxodo 20:4). A ordem não aparece isoladamente. Ela está inserida imediatamente depois da declaração de que Israel não deveria ter outros deuses diante do ETERNO. A sequência é significativa, porque apresenta dois aspectos de uma mesma exigência: Israel deveria reconhecer somente o ETERNO como seu Elohim e não produzir imagens para ocupar uma função religiosa diante dEle.
Deuteronômio amplia essa compreensão ao recordar o acontecimento no monte Horebe. Moisés chama a atenção para algo que deveria permanecer na memória de Israel: o povo ouviu uma voz, mas não viu forma alguma. Por isso, não deveria corromper sua relação com o ETERNO fabricando uma representação de homem, mulher, animal, ave ou qualquer outro elemento da criação para utilizá-lo religiosamente (Deuteronômio 4:12,15-19). A questão ganha uma profundidade que ultrapassa a simples fabricação de objetos. Israel deveria aprender a não transformar aquilo que pertence à criação em uma representação daquilo que não poderia ser reduzido a uma forma criada.
Essa orientação distinguia Israel das nações que o cercavam. Enquanto os povos podiam construir imagens para representar seus deuses e estabelecer diante delas práticas religiosas, Israel recebeu uma instrução que impedia a materialização do ETERNO por meio de uma figura criada.
A fé bíblica não dependia da fabricação de uma forma visível para que o adorador tivesse acesso à realidade divina. O relacionamento com o ETERNO era estabelecido por Sua Palavra, por Sua aliança e pela obediência às instruções que havia revelado.
A gravidade da idolatria aparece ainda mais claramente quando os profetas passam a questionar a própria lógica das imagens. Isaías descreve o homem que retira madeira de uma árvore, utiliza parte dela para produzir fogo e, com o restante, fabrica um objeto diante do qual se prostra.
A ironia do profeta não está apenas no material utilizado, mas na inversão da realidade: aquilo que foi produzido pelo homem passa a receber uma posição religiosa diante do próprio homem. A criatura fabrica o objeto e depois passa a tratá-lo como se possuísse uma realidade superior à matéria da qual foi feito (Isaías 44:9-20).
Jeremias desenvolve uma crítica semelhante ao falar dos costumes religiosos das nações. As imagens são produzidas pelas mãos dos homens, transportadas, adornadas e colocadas em seus lugares, mas permanecem incapazes de falar, andar ou agir por si mesmas (Jeremias 10:1-5).
O profeta não está condenando a existência de objetos artísticos em si. Seu alvo é a atribuição de uma autoridade espiritual a algo que não passa de obra humana. A imagem possui olhos, mas não vê; possui boca, mas não fala. O problema está naquilo que o homem passa a acreditar e praticar diante dela.
O Salmo 115 apresenta a mesma lógica de maneira ainda mais direta. Os ídolos das nações são descritos como obras de prata e ouro, fabricadas pelas mãos humanas. Possuem boca, mas não falam; olhos, mas não veem; ouvidos, mas não ouvem; nariz, mas não cheiram; mãos, mas não apalpam; pés, mas não andam.
A crítica bíblica revela uma consequência espiritual importante: aqueles que fabricam e confiam nesses objetos acabam se tornando semelhantes a eles, isto é, incapazes de perceber a realidade.
A idolatria, dessa maneira, não deve ser reduzida à ideia de que alguém simplesmente acredita que uma estátua seja literalmente um deus. O fenômeno é mais profundo. A imagem funciona como um ponto de concentração da devoção humana. Ela recebe gestos, palavras, confiança e práticas religiosas que deveriam estar direcionados exclusivamente ao ETERNO. É essa transferência que transforma uma obra material em um objeto de idolatria.
A própria história de Israel confirma essa preocupação. O episódio do bezerro de ouro, registrado em Êxodo 32, demonstra como rapidamente o povo poderia abandonar a forma estabelecida de relacionamento com o ETERNO e buscar uma representação visível. O problema não era apenas a existência de um objeto feito de ouro. O problema estava no significado religioso que o povo atribuiu àquela obra e na maneira como passou a relacionar sua adoração com uma representação material.
Esse episódio é particularmente importante porque demonstra que a idolatria pode surgir mesmo entre pessoas que afirmam estar adorando o verdadeiro Elohim. O bezerro de ouro não precisa ser interpretado apenas como uma simples substituição de uma divindade por outra. O acontecimento revela também a tentativa de transformar a experiência religiosa em algo visível e manipulável. Israel queria uma forma concreta para sua devoção, mas a Torá havia estabelecido justamente o contrário: o relacionamento com o ETERNO não deveria depender da fabricação de uma imagem.
Essa distinção será fundamental para compreender os acontecimentos posteriores da história bíblica. As Escrituras registram objetos produzidos dentro do próprio culto israelita, o que impede uma interpretação superficial segundo a qual qualquer representação visual seria automaticamente proibida.
Havia, por exemplo, querubins representados sobre a arca da aliança, conforme a instrução registrada em Êxodo 25:18-22. Também houve a serpente de bronze levantada por Moisés no deserto, conforme Números 21:8,9. Esses episódios demonstram que a questão precisa ser analisada com maior precisão.
O próprio caso da serpente de bronze oferece uma das evidências mais importantes para essa distinção. Ela foi produzida por uma determinação específica e esteve relacionada a um acontecimento concreto da história de Israel. Contudo, séculos depois, o povo passou a queimar incenso diante dela. O rei Ezequias, em sua reforma religiosa, destruiu a serpente porque ela havia se tornado objeto de culto (2 Reis 18:4). O objeto que havia possuído uma finalidade determinada passou a exercer outra função na prática religiosa do povo.
Esse episódio impede que a discussão seja reduzida à matéria de que uma imagem é feita. Bronze, madeira, pedra, ouro ou qualquer outro material não determina sozinho se um objeto se tornou idolátrico. O elemento decisivo é a função que o objeto passou a ocupar na relação religiosa. A serpente de bronze demonstra que até mesmo algo que teve origem legítima poderia ser transformado em instrumento de idolatria quando o povo passou a direcionar a ele uma prática de culto.
A diferença entre representação e idolatria começa a ficar clara justamente nesse ponto. Uma representação pode existir sem ser objeto de culto. A idolatria começa quando a representação passa a receber uma função religiosa que não lhe pertence. O objeto deixa de ser apenas um objeto e passa a ocupar um lugar na devoção humana. Quando isso acontece, a matéria deixa de ser apenas matéria dentro da prática religiosa e passa a funcionar como intermediária, símbolo sagrado ou objeto ao qual se dirigem atos de veneração.
A Torá, ao estabelecer esses limites, não estava simplesmente tentando eliminar toda expressão visual da cultura israelita. Seu propósito era preservar a exclusividade da relação com o ETERNO e impedir que Israel reproduzisse o modelo religioso das nações. O povo deveria viver entre sociedades repletas de imagens sem transformar essas práticas em parte de sua própria adoração.
Essa preocupação permanece presente quando a Torá orienta Israel a não seguir os costumes religiosos das nações. Deuteronômio 12 apresenta uma advertência especialmente importante: Israel não deveria perguntar como as nações serviam aos seus deuses para então fazer algo semelhante na adoração ao ETERNO. A advertência é decisiva porque demonstra que não bastava utilizar o nome do ETERNO. A própria forma de culto também deveria permanecer submetida àquilo que havia sido estabelecido nas Escrituras.
Assim, a questão das imagens de escultura não pode ser separada da questão mais ampla da idolatria. A Bíblia não apresenta Israel simplesmente como um povo que recebeu uma regra estética contra esculturas. O que estava em jogo era a preservação de uma forma específica de relacionamento com o ETERNO em contraste com os sistemas religiosos das nações. Os povos construíam suas representações, atribuíam-lhes significado espiritual e realizavam diante delas suas práticas religiosas. Israel foi chamado a não reproduzir esse padrão.
A história bíblica mostra, entretanto, que a simples proibição não eliminou o problema. Israel repetidamente caiu na idolatria, incorporando práticas estrangeiras, erguendo altares e utilizando imagens em seus cultos. Por isso, os profetas não cessaram de denunciar a corrupção da adoração. A batalha contra a idolatria não era apenas uma batalha contra objetos. Era uma disputa pela própria compreensão de quem deveria ocupar o centro da devoção de Israel.
É nesse ponto que a discussão sobre imagens deixa de ser uma questão secundária e passa a tocar o coração da própria aliança. A imagem produzida pelas mãos humanas pertence ao mundo criado. O ETERNO, porém, não poderia ser reduzido àquilo que o homem consegue fabricar. Israel deveria aprender a reconhecer essa diferença e resistir à tentação de tornar visível, manipulável e religiosamente acessível aquilo que não havia recebido autorização para representar.
A partir dessa compreensão, torna-se possível avançar para a própria experiência de Israel. A questão já não será apenas saber como os povos utilizavam imagens, mas observar como o próprio povo da aliança lidou com essa tentação ao longo de sua história. O bezerro de ouro, os ídolos introduzidos durante a monarquia e, posteriormente, a destruição da serpente de bronze mostrarão que a idolatria não desaparecia simplesmente porque Israel conhecia o mandamento. Ela precisava ser constantemente confrontada quando qualquer objeto, tradição ou prática começava a ocupar na devoção aquilo que pertencia exclusivamente ao ETERNO.
Seja iluminado!!!
- Salmos 119:130 -
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