Por Cleiton Gomes
(Parte 3 - fim)
Com o critério estabelecido pela própria história de Israel, chegamos agora a uma realidade religiosa posterior na qual as imagens passaram a ocupar um lugar significativo: a Igreja Católica Romana. Neste ponto, a questão já não consiste simplesmente em constatar a existência de estátuas, pinturas ou outras representações dentro de seus espaços religiosos. O que importa é compreender a função que essas imagens receberam e confrontá-la com o padrão estabelecido pelas Escrituras.
A própria Igreja Católica estabelece uma distinção entre a imagem e aquilo que ela representa. Sua doutrina não afirma que as imagens de Yeshua, de Maria, dos anjos ou dos santos sejam divindades. Ao contrário, sustenta que a honra prestada à representação se dirige à pessoa representada e distingue essa veneração da adoração devida ao ETERNO. As imagens são, assim, compreendidas como representações que podem participar da devoção sem que a matéria da qual foram produzidas seja considerada divina.
Essa distinção precisa ser reconhecida com precisão, porque não seria correto atribuir ao catolicismo a crença de que uma estátua de madeira, pedra ou metal seja literalmente um deus. A questão bíblica, entretanto, permanece. Mesmo quando a imagem não é identificada como uma divindade, é necessário avaliar se a prática religiosa desenvolvida diante dela corresponde ao padrão apresentado pelas Escrituras.
A Torá estabelece que Israel não deveria produzir imagens para se prostrar diante delas e servi-las (Êxodo 20:3-5; Deuteronômio 5:7-9). O mandamento, portanto, não trata somente daquilo que o homem acredita sobre a natureza do objeto, mas também daquilo que realiza diante dele. A prostração e o serviço religioso aparecem associados à proibição porque a questão envolve a maneira como a criatura expressa sua devoção.
Essa distinção torna-se especialmente importante quando observamos a utilização das imagens no catolicismo romano. Elas não permanecem apenas como elementos decorativos ou como registros artísticos da história cristã. São colocadas em espaços destinados à oração e à devoção e participam de práticas religiosas nas quais recebem gestos de reverência. A própria tradição católica reconhece essa função devocional ao tratar as imagens como objetos de veneração.
Segundo a explicação católica, porém, essa veneração não termina na imagem. A representação serviria como referência à pessoa representada. Uma imagem de Yeshua conduziria a devoção a Yeshua; uma imagem de Maria, a Maria; uma imagem de um santo, à pessoa representada. A diferença apresentada pela tradição, portanto, não está simplesmente na existência da imagem, mas na compreensão de que a honra prestada à representação alcançaria aquele que ela representa.
É justamente nesse ponto que o princípio revelado na história de Israel precisa ser retomado. A serpente de bronze possuía uma relação legítima com a história do povo, mas isso não impediu que seu uso posterior se tornasse inadequado. Quando os israelitas passaram a queimar incenso diante dela, Ezequias a destruiu (2 Reis 18:4). O objeto não foi preservado por sua importância histórica, nem sua origem foi utilizada para justificar a prática que havia se desenvolvido ao seu redor. O que determinou sua remoção foi a função religiosa que havia adquirido.
Esse episódio estabelece um critério que ultrapassa o caso específico da serpente. Uma representação não deve ser julgada apenas pelo que pretende representar, pela sua origem ou pela intenção declarada de quem a utiliza. É necessário considerar o lugar que ela ocupa na prática religiosa. A mesma distinção vale para qualquer representação introduzida no contexto da devoção.
Por isso, o fato de uma imagem representar uma pessoa verdadeira não resolve a questão. Uma pintura pode representar alguém sem que isso lhe atribua qualquer função religiosa. Uma fotografia pode preservar visualmente a memória de uma pessoa sem que alguém lhe atribua caráter sagrado. A representação, em si mesma, não constitui culto. A mudança ocorre quando ela passa a participar da devoção.
As Escrituras apresentam pessoas que receberam honra, respeito e reconhecimento sem estabelecer uma prática de veneração por meio de representações. Maria foi honrada entre as mulheres e declarada bem aventurada (Lucas 1:28,42,48), mas não encontramos os discípulos dirigindo orações ou atos de veneração a uma representação material sua. Os apóstolos receberam autoridade e reconhecimento dentro da comunidade, mas também não são apresentados como objetos de devoção por meio de imagens.
O mesmo princípio aparece quando a Escritura apresenta homens e mulheres fiéis como exemplos para as gerações seguintes. Hebreus 11 recorda Abel, Noé, Abraão, Sara, Moisés e tantos outros para demonstrar a perseverança da fé. O objetivo é que seus testemunhos sejam conhecidos e imitados, não que suas representações sejam introduzidas como elementos da devoção. A memória dos fiéis é preservada pelo testemunho de suas vidas e pela fidelidade que demonstraram.
A oração reforça ainda mais essa distinção. Nas Escrituras, ela aparece como expressão de fé, confiança e comunhão. Yeshua ensinou seus discípulos a orar pedindo em seu nome (João 16:23-24). Em nenhum desses ensinamentos aparece uma representação material como elemento necessário para a oração.
Essa ausência não pode ser tratada como um detalhe irrelevante. Quando uma prática religiosa é apresentada como necessária ou apropriada dentro da devoção, seria necessário encontrar nas Escrituras algum fundamento para ela. Entretanto, o testemunho bíblico não apresenta imagens de Yeshua, de Maria ou dos santos como instrumentos de oração ou como objetos diante dos quais os discípulos deveriam realizar atos de devoção.
A questão torna-se ainda mais significativa quando consideramos o argumento construído em torno da encarnação de Yeshua. A Igreja Católica relaciona a possibilidade de representar Yeshua à realidade de sua manifestação corporal. Se o Verbo assumiu verdadeira humanidade e entrou na realidade visível, então, segundo essa compreensão, sua humanidade poderia ser representada artisticamente. A partir dessa premissa, a tradição católica desenvolveu também a defesa da veneração das imagens de Cristo.
Entretanto, uma coisa é afirmar a realidade corporal de Yeshua; outra é concluir que essa realidade concede autorização para produzir uma representação de sua aparência e introduzi-la na devoção. A Escritura afirma a encarnação, mas não registra uma ordem para que os discípulos produzissem uma imagem de escultura de Yeshua para ser utilizada no culto. O fato de Yeshua ter sido visível não é, por si só, uma autorização para transformar sua aparência em objeto de veneração.
Essa distinção torna-se ainda mais evidente quando observamos o testemunho apostólico. Os primeiros discípulos anunciaram aquilo que haviam visto, ouvido e tocado (1 João 1:1-3). A memória de Yeshua foi preservada por meio do testemunho, da proclamação, do ensino e dos acontecimentos registrados pelos discípulos. Não encontramos, porém, a preservação de um retrato físico de Yeshua sendo apresentado à comunidade como instrumento de devoção.
Também não possuímos nos Evangelhos uma descrição física detalhada que permita reconstruir seu rosto com segurança. Nenhum dos relatos fornece características suficientes para determinar como era sua aparência. Consequentemente, uma pintura ou escultura produzida posteriormente não pode ser apresentada como uma reprodução historicamente comprovada do rosto de Yeshua. Trata-se de uma representação artística, construída segundo escolhas humanas e influenciada pelas características culturais de cada época.
A própria Escritura demonstra que, quando determinados elementos visuais deveriam fazer parte da composição de um ambiente relacionado ao culto, isso era estabelecido de maneira clara. É o que encontramos no Tabernáculo, onde o ETERNO determinou a presença de querubins sobre a arca da aliança, além de outros elementos ornamentais que faziam parte da estrutura do santuário (Êxodo 25:18-22). Nesse caso, não se trata de uma iniciativa humana posteriormente incorporada à devoção, mas de uma determinação expressa acerca daquilo que deveria compor aquele ambiente.
Quando passamos, porém, para o testemunho dos Evangelhos e dos primeiros discípulos, encontramos uma realidade diferente. Nada é ordenado ou apresentado como prática da comunidade em relação à produção e utilização de representações físicas de pessoas que já haviam partido deste mundo. Não encontramos os discípulos produzindo imagens de Abraão, Moisés, Davi, dos profetas ou mesmo daqueles que haviam acompanhado Yeshua para utilizá-las em sua devoção. A Escritura registra seus testemunhos, preserva suas palavras e apresenta suas vidas como exemplos, mas não estabelece suas representações físicas como elementos do culto. Essa diferença não pode ser ignorada.
O próprio caso da serpente de bronze demonstra que uma representação relacionada à história sagrada não recebe automaticamente legitimidade religiosa permanente. A serpente possuía uma finalidade específica, mas passou posteriormente a receber incenso. Quando isso aconteceu, Ezequias a destruiu (2 Reis 18:4). A Escritura demonstra, assim, que nem mesmo a associação de um objeto com um acontecimento determinado pelo ETERNO é suficiente para justificar qualquer forma posterior de devoção.
O problema, então, não é simplesmente semântico. Trocar a palavra “adoração” por “veneração” não resolve automaticamente a questão bíblica. A mudança do termo utilizado para descrever uma prática não altera necessariamente a natureza dos atos realizados. Se uma imagem recebe prostração, beijos, orações, pedidos, gestos de reverência ou outras expressões de devoção, é o próprio ato que precisa ser confrontado com as Escrituras.
Esse mesmo princípio permite compreender a questão das imagens religiosas no catolicismo romano sem atribuir aos seus praticantes uma crença que eles próprios não professam. Não é necessário afirmar que todo católico considera uma estátua uma divindade. A questão é mais precisa e, justamente por isso, mais séria: a utilização de imagens como parte da veneração religiosa encontra fundamento no padrão apresentado pelas Escrituras?
À luz do que foi estabelecido ao longo destes três estudos, a resposta é negativa. As Escrituras permitem distinguir claramente entre representação artística e prática de culto. Elas registram objetos visuais dentro do Tabernáculo e do Templo, demonstrando que a arte não é o problema. Ao mesmo tempo, condenam a utilização de imagens em práticas de devoção e mostram que até mesmo um objeto originalmente relacionado à própria história de Israel deveria ser destruído quando passou a receber uma função religiosa indevida.
O problema nunca esteve simplesmente naquilo que os olhos conseguem enxergar em uma imagem. A questão está naquilo que o coração do homem passa a fazer diante dela. A Escritura chama o homem a voltar sua confiança, sua devoção e sua adoração ao ETERNO, sem substituir essa relação por aquilo que suas próprias mãos foram capazes de produzir.
Seja iluminado!!!
- Salmos 119:130 -
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