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Ser Sal da Terra

 Por Cleiton Gomes


Quando Yeshua declarou: “Vós sois o sal da terra” (Mateus 5:13), Ele não estava utilizando uma figura de linguagem superficial. O sal possuía funções muito concretas na sociedade de sua época, especialmente na conservação dos alimentos, no preparo das refeições e em diferentes práticas de cuidado. Portanto, compreender essa declaração exige olhar para aquilo que o sal representava para seus ouvintes. Yeshua estava falando sobre uma responsabilidade que seus seguidores deveriam exercer dentro do mundo.

Uma das funções mais importantes do sal era retardar a corrupção e a deterioração dos alimentos. Em uma época sem refrigeração, ele era utilizado para conservar carnes e outros produtos, impedindo que se deteriorassem rapidamente. Quando entendemos essa característica, a declaração de Yeshua ganha uma dimensão muito mais profunda. Seus seguidores deveriam ser uma presença que restringe a expansão do mal e da corrupção em meio à sociedade.

Isso significa que o discípulo não foi chamado para simplesmente observar o mundo se deteriorar. Ele não deve olhar para a injustiça, a mentira, a violência e a corrupção como acontecimentos inevitáveis dos quais nada pode ser feito. Assim como o sal era colocado em contato com aquilo que precisava ser preservado, o povo de Yeshua deveria estar presente no mundo. Sua presença deveria estabelecer resistência diante daquilo que destrói a vida.

Ser sal, portanto, também significa não colaborar com a corrupção. Quando todos mentem, o discípulo escolhe a verdade; quando todos exploram, ele escolhe a justiça; quando a desonestidade se torna normal, ele permanece íntegro. Isso não significa que uma única pessoa conseguirá eliminar todo o mal existente no mundo. Significa que, onde houver um discípulo, o mal não deveria encontrar nele um aliado.

O sal, porém, não serve apenas para conservar. Ele também possui a capacidade de realçar o sabor dos alimentos. Uma pequena quantidade pode fazer com que aquilo que já está presente seja percebido de maneira mais intensa e agradável. Essa característica amplia ainda mais o significado das palavras de Yeshua. O discípulo não existe apenas para impedir que o mundo piore; ele também deve contribuir para que o mundo se torne melhor.

Existe uma diferença enorme entre simplesmente combater o mal e também produzir o bem. O Reino anunciado por Yeshua não consiste apenas em dizer “não” àquilo que é errado, mas em apresentar uma maneira diferente de viver. Onde existe ódio, podemos acrescentar reconciliação; onde existe injustiça, justiça; onde existe desespero, esperança; onde existe egoísmo, generosidade. O sal não apenas impede a deterioração: ele também transforma a experiência daquilo que toca.

Por isso, ser sal da terra significa renovar o ambiente no qual estamos inseridos. Um profissional íntegro pode transformar a cultura de uma empresa; um pai pode transformar a história de sua família; um cidadão justo pode influenciar sua comunidade. A influência do discípulo não precisa necessariamente ser grandiosa ou pública para ser verdadeira. Muitas vezes, pequenas atitudes praticadas diariamente produzem transformações que somente serão percebidas muitos anos depois.

Há ainda uma terceira dimensão que pode ser observada nas antigas utilizações do sal: sua presença em preparações e práticas tradicionais relacionadas ao cuidado e à saúde. Misturas contendo sal e mel, por exemplo, aparecem em registros históricos de diferentes tradições medicinais. Isso não significa transformar essa prática histórica em uma prescrição médica moderna, mas ela pode nos ajudar a enxergar outra dimensão simbólica. O sal também pode representar cuidado, restauração e participação na cura.

Essa perspectiva é profundamente coerente com a missão de Yeshua. Ele não enviou seus seguidores ao mundo para simplesmente apontar suas feridas e condená-las. Ele os chamou para anunciar o Reino, servir, cuidar, reconciliar, levantar os que haviam caído e levar esperança aos que estavam sofrendo. O discípulo não deveria olhar para um mundo ferido e desejar sua destruição. Deveria perguntar: “Como posso participar da restauração daquilo que está quebrado?”

Essa diferença é fundamental. É muito fácil olhar para uma sociedade em decadência e dizer: “Eu avisei”. É muito mais difícil aproximar-se das pessoas que estão sofrendo e ajudá-las a reconstruir suas vidas. É fácil apontar para uma ferida e condenar quem a possui. É muito mais difícil aproximar-se dela com verdade, misericórdia e disposição para servir. Yeshua não chamou seu povo para celebrar a doença do mundo, mas para participar de sua restauração.

Por isso, existe algo profundamente contraditório em um discípulo que deseja que o mundo piore para provar que ele estava certo. Se somos o sal da terra, quanto maior a deterioração, maior deveria ser nossa disposição de preservar. Quanto maior a injustiça, maior deveria ser nossa disposição de praticar justiça. Quanto maior o sofrimento, maior deveria ser nossa disposição de demonstrar misericórdia. A decadência do mundo não deveria produzir satisfação em nós, mas responsabilidade.

Entretanto, o sal precisa entrar em contato com aquilo que pretende conservar. Um punhado de sal guardado dentro de um recipiente não cumpre sua finalidade. Da mesma maneira, o discípulo não foi chamado para viver completamente isolado da sociedade. Yeshua não disse: “Vós sois o sal da congregação”, mas “vós sois o sal da terra”. Existe uma missão que ultrapassa os limites do ambiente religioso.

Isso significa que o povo do Reino precisa estar presente onde a vida acontece. Na família, no trabalho, nos negócios, na educação, na cultura, na comunidade e em todos os ambientes nos quais pessoas possam ser influenciadas. Mas essa presença possui uma condição: o sal precisa tocar aquilo que pretende preservar sem deixar de ser sal. O discípulo precisa estar no mundo sem permitir que o mundo determine quem ele é.

Essa é uma das maiores tensões da vida de quem segue Yeshua: presença sem assimilação, influência sem corrupção e proximidade sem perda de identidade. Não somos chamados a abandonar o mundo, mas também não somos chamados a nos tornar indistinguíveis dele. Se o discípulo perde aquilo que o diferencia, perde justamente a capacidade de cumprir sua missão. O mundo não precisa de uma cópia de si mesmo; precisa de pessoas que apresentem uma realidade diferente.

É por isso que Yeshua apresenta uma advertência imediatamente depois: “Se o sal se tornar insípido, com que se há de salgar?” O problema não é o sal estar na terra, mas estar na terra sem cumprir mais a sua função. Um discípulo pode continuar utilizando uma linguagem religiosa, frequentando reuniões e falando sobre as Escrituras, mas, se sua vida não preserva, não renova e não produz restauração, sua identidade tornou-se apenas aparência.

O sal que perdeu sua função tornou-se inútil. Da mesma maneira, não basta afirmar que pertencemos ao Reino; precisamos manifestar os valores desse Reino através da nossa existência. Não basta conhecer a verdade; precisamos praticá-la. Não basta condenar a injustiça; precisamos agir com justiça. Não basta falar sobre amor, misericórdia e restauração; precisamos ser instrumentos dessas coisas onde estivermos.

Talvez seja possível resumir a declaração de Yeshua em três grandes responsabilidades: preservar, renovar e restaurar. Preservar aquilo que está ameaçado pela corrupção. Renovar aquilo que perdeu seu sabor, sua beleza e sua esperança. Restaurar aquilo que foi ferido, quebrado ou destruído. O discípulo não é o redentor do mundo, pois a redenção pertence ao ETERNO, mas é chamado a participar da obra de restauração que Ele realiza.

Ser sal da terra, portanto, é muito mais do que “dar sabor à vida das pessoas”. É assumir responsabilidade pelo lugar onde fomos colocados. É impedir que a corrupção avance sem resistência, acrescentar aquilo que torna a vida melhor e participar do cuidado daqueles que estão feridos. É entrar no mundo não para destruí-lo, mas para revelar, através da própria vida, que existe outro caminho.

Yeshua não disse: “Vós sois o sal de dentro da instituição religiosa.” Ele disse: “Vós sois o sal da terra.” A terra é o campo onde essa missão acontece, e as pessoas são aquelas que devem experimentar os efeitos dessa presença. Onde houver corrupção, que encontrem resistência; onde houver vazio, que encontrem sentido; onde houver sofrimento, que encontrem cuidado. Onde estivermos, nossa presença deveria tornar mais difícil para o mal prosperar.

Ser sal, então, não significa apenas não fazer parte do problema. Significa decidir fazer parte da resposta. Significa preservar aquilo que ainda pode ser preservado, renovar aquilo que perdeu seu sabor e participar da cura daquilo que está ferido. Esse é o chamado de quem pertence ao Reino: não abandonar o mundo à sua deterioração, mas entrar nele com verdade, misericórdia e esperança, tornando visível a restauração que vem do ETERNO.


Seja iluminado!!!
- Salmos 119:130 -






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