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Quando a obediência vira desobediência

 Por Cleiton Gomes


Existe uma forma de desobediência que se apresenta com aparência de obediência. Ela não rejeita os mandamentos, não despreza as Escrituras e não declara guerra à vontade do ETERNO. Pelo contrário, conhece palavras, repete preceitos e pode até construir uma vida inteira ao redor da religião. Ainda assim, pode estar distante daquele que ordenou. É quando o homem cumpre aquilo que consegue enxergar, mas perde aquilo que o mandamento pretendia produzir dentro dele.

Foi exatamente essa contradição que os profetas denunciaram. O ETERNO nunca pareceu impressionado com uma obediência exterior acompanhada de um coração corrompido. Por isso Samuel declarou a Saul: “Obedecer é melhor do que sacrificar” (1 Samuel 15:22). Saul havia realizado um ato religioso, mas havia desobedecido àquilo que realmente lhe fora ordenado. O problema não estava na ausência de religião, mas na tentativa de usar a religião para substituir a obediência verdadeira.

Isso revela algo fundamental: mandamento não existe isoladamente de seu propósito. A Torá não foi entregue para produzir homens especialistas em regras, mas um povo que conhecesse os caminhos do ETERNO e aprendesse a viver segundo eles. Quando o mandamento é separado de sua finalidade, a obediência pode conservar a forma enquanto perde a essência.

Yeshua confrontou essa mesma distorção inúmeras vezes. Sua crítica aos religiosos de seu tempo não consistia em dizer que a Torá era um erro, mas em revelar o que acontecia quando tradições humanas ocupavam o lugar daquilo que o ETERNO havia estabelecido. Eles podiam honrar o mandamento com os lábios e, ao mesmo tempo, anulá-lo por causa de suas próprias interpretações. Conheciam a letra, mas haviam perdido o coração.

É por isso que Yeshua resumiu a essência da Torá em amar o ETERNO e amar o próximo. Não porque os mandamentos fossem insuficientes, mas porque toda verdadeira obediência converge para esse princípio. Quem cumpre uma regra enquanto despreza aquele que deveria amar ainda não compreendeu aquilo que está fazendo.

Essa é uma advertência também para quem se considera zeloso pelas Escrituras. É possível defender a verdade e perder a misericórdia. É possível corrigir o erro e fazê-lo com arrogância. É possível conhecer os mandamentos e usar esse conhecimento para se sentir superior aos que ainda não os conhecem. É possível estar tão preocupado em provar que está certo que já não percebe quando seu próprio coração está se afastando daquilo que afirma defender.

A obediência verdadeira, porém, não produz apenas conformidade exterior. Ela transforma o homem. Faz nascer justiça onde havia egoísmo, misericórdia onde havia dureza, humildade onde havia orgulho e amor onde havia indiferença. O mandamento deixa de ser apenas algo que se cumpre e passa a revelar quem está governando o interior.

Talvez essa seja uma das maiores ironias da religiosidade: o homem pode começar buscando obedecer ao ETERNO e terminar obedecendo à própria imagem de homem obediente. Já não importa tanto agradar ao ETERNO, mas parecer correto diante dos outros. A partir daí, a obediência deixa de ser relacionamento e se transforma em identidade, status e instrumento de julgamento.

Yeshua veio justamente para romper essa aparência. Ele não veio abolir as instruções da Torá, mas revelar sua profundidade. Não veio libertar o homem da obediência, mas libertá-lo de uma compreensão deformada da obediência. Ele mostrou que o mandamento alcança lugares onde nenhuma aparência religiosa consegue chegar: os pensamentos, as intenções, a maneira como tratamos o outro e aquilo que fazemos quando ninguém está olhando.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja simplesmente “Estou obedecendo?”, mas “Que tipo de pessoa minha obediência está me tornando?”.

Se aquilo que chamamos de obediência nos torna arrogantes, impiedosos, vingativos e incapazes de perdoar, alguma coisa foi perdida no caminho. Se nosso conhecimento das Escrituras aumenta enquanto nossa capacidade de amar diminui, não podemos chamar isso de maturidade espiritual. O conhecimento pode até ter crescido, mas a compreensão ainda não alcançou o coração.

O ETERNO não procura homens que simplesmente saibam cumprir ordens. Ele procura aqueles cujo coração aprendeu a reconhecer sua voz. A verdadeira obediência não é uma tentativa de parecer santo diante dos homens, mas a resposta de quem compreendeu a vontade daquele que ordena.

A letra sem o coração produz religiosidade. O coração sem a verdade produz sentimentalismo. Mas quando verdade e amor caminham juntos, a obediência deixa de ser um peso exterior e passa a ser expressão de uma vida transformada.

No fim, o maior perigo talvez não seja desobedecer conscientemente. É acreditar que estamos obedecendo enquanto, pouco a pouco, substituímos a vontade do ETERNO pela nossa própria maneira de servi-lo.




Seja iluminado!!!
- Salmos 119:130 -



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