Por Cleiton Gomes
Quando Yeshua falou sobre o grão de mostarda (Mateus 17:20), Ele não estava dizendo que seus discípulos deveriam possuir uma fé pequena, do tamanho daquela semente. A comparação aponta para uma característica do grão que o próprio Yeshua já havia destacado em Marcos 4:31-32: embora seja uma semente muito pequena, quando semeada, cresce e se torna maior que as hortaliças. A ênfase, portanto, não está na quantidade da fé, mas naquilo que ela é capaz de desenvolver. Yeshua apresenta uma fé viva, que cresce, cria raízes e alcança dimensões que não podiam ser percebidas em seu início.
Essa compreensão também ilumina a expressão “homens de pouca fé”, utilizada por Yeshua em diferentes ocasiões. Seus discípulos estavam sendo conduzidos a uma confiança mais profunda, capaz de permanecer quando o medo surgisse e as circunstâncias parecessem contradizer aquilo que haviam aprendido. A fé não deveria permanecer restrita ao estágio em que começou. Assim como a semente não permanece pequena depois de plantada, a confiança no ETERNO também é chamada a amadurecer ao longo da caminhada.
Uma semente carrega dentro de si uma realidade que o olhar não consegue perceber imediatamente. Quando é lançada à terra, desaparece da vista enquanto seu desenvolvimento acontece silenciosamente sob a superfície. Há períodos semelhantes na caminhada com o ETERNO, nos quais pouco parece acontecer, embora algo esteja sendo construído em profundidade. Nem todo crescimento pode ser medido por aquilo que já se tornou visível.
Para que a semente cumpra seu potencial, porém, ela precisa ser plantada. Enquanto permanece guardada, conserva aquilo que possui, mas não manifesta aquilo que poderia produzir. A fé também precisa sair do campo das ideias e entrar na experiência: confiar, obedecer, perseverar e continuar caminhando mesmo quando os resultados ainda não apareceram. É nesse processo que aquilo que acreditamos deixa de ser apenas uma convicção intelectual e passa a criar raízes na vida.
A semente de mostarda também nos oferece uma imagem de resistência. Seu desenvolvimento não depende de encontrar um ambiente absolutamente livre de dificuldades, mas de possuir condições para continuar crescendo apesar delas. A caminhada com o ETERNO inclui espera, perdas, oposição, dúvidas e situações que ultrapassam nossas forças. A fé não elimina essas experiências; ela nos ensina a atravessá-las sem abandonar Aquele em quem confiamos.
É justamente nas adversidades que a profundidade das raízes se torna conhecida. Enquanto tudo está favorável, uma fé pode parecer firme sem jamais ter sido realmente provada. A dificuldade revela aquilo que estava oculto e pode conduzir a raízes ainda mais profundas. Permanecer quando seria mais fácil desistir é uma das expressões mais concretas de uma fé que amadureceu.
É nesse contexto que podemos compreender a fé capaz de mover montanhas. Yeshua acaba de falar de uma semente que cresce a partir de um começo pequeno e se desenvolve muito além de sua aparência inicial. Crescer, entretanto, não significa encontrar um caminho perfeitamente livre; debaixo da terra, a raiz avança em meio ao solo e encontra resistência em seu percurso. A imagem da montanha, portanto, pode ser compreendida dentro da própria dinâmica da semente: aquilo que cresce encontra obstáculos, mas não precisa parar diante deles.
A raiz não interpreta a resistência como o fim de seu desenvolvimento. Ela encontra uma passagem, contorna aquilo que está diante dela e continua avançando. É nesse ponto que o próprio contexto nos conduz a compreender a imagem da montanha de outra maneira: não como algo que necessariamente precisa desaparecer, mas como um obstáculo que não é capaz de determinar até onde a fé pode chegar. O caminho pode mudar, pode se tornar mais difícil e até parecer improvável, mas aquilo que está vivo continua crescendo.
Isso é importante porque a expressão “mover montanhas” pode produzir uma imagem completamente diferente daquela apresentada pela semente. O leitor pode imaginar alguém caminhando pela superfície, encontrando uma enorme montanha em seu caminho e, por meio de uma espécie de poder sobrenatural, deslocando-a fisicamente de um lugar para outro. Mas essa imagem abandona o cenário que Yeshua acabou de estabelecer. A montanha, dentro dessa leitura, não precisa ser transportada para longe; ela deve ser compreendida a partir do movimento daquilo que cresce.
O movimento, portanto, não precisa estar na montanha, mas na própria trajetória da semente. Ela continua avançando, mesmo quando o caminho não se apresenta como imaginava. O obstáculo pode permanecer onde está sem determinar o limite do crescimento. Mover a montanha passa a expressar a capacidade de uma fé viva de continuar seu percurso até que aquilo que parecia intransponível deixe de impedir seu desenvolvimento.
Essa leitura também nos afasta da ideia de que a fé seria uma espécie de poder colocado nas mãos do discípulo para controlar a realidade conforme sua vontade. Yeshua não está ensinando que aquele que crê receberá “superpoderes”, nem que poderá exigir do ETERNO qualquer resultado que desejar. A força da fé está em permanecer confiando nEle quando o caminho se torna difícil e a solução não pode ser vista. Ela não controla o percurso; ela permanece nele.
Por isso, mover montanhas não significa fazer exigências ao ETERNO para que tudo aconteça conforme nossos planos. Significa continuar caminhando quando aquilo que está diante de nós parece não oferecer saída, confiando que a impossibilidade de enxergar um caminho não significa que ele não exista. A montanha pode continuar diante dos olhos, mas já não determina o limite da esperança. A fé permanece em movimento porque suas raízes não estão presas à facilidade do caminho, mas à fidelidade do ETERNO.
Essa perspectiva também muda a maneira como enxergamos os pequenos começos. Frequentemente esperamos que aquilo que vem do ETERNO apareça de forma grandiosa, visível e impressionante, mas Yeshua escolhe justamente uma semente quase imperceptível para falar sobre o Reino. O início pode ser discreto sem que o destino seja pequeno. O que importa é aquilo que está sendo desenvolvido e a disposição de permanecer no processo.
Uma pessoa pode começar sua caminhada com muitas perguntas, pouca experiência e uma compreensão ainda limitada. Isso não precisa ser motivo de vergonha, desde que exista disposição para crescer. Conhecer as Escrituras, experimentar a fidelidade do ETERNO, obedecer e atravessar as circunstâncias da vida contribuem para esse amadurecimento. A questão não é onde a fé começou, mas em que direção ela está crescendo.
Por isso, a semente precisa permanecer no processo. Não podemos retirá-la constantemente da terra para verificar se já cresceu; determinadas transformações exigem tempo, silêncio e continuidade. Há períodos em que não compreenderemos o que está acontecendo e outros em que não veremos resultado algum. Isso não significa ausência de crescimento, porque algumas das raízes mais profundas se desenvolvem justamente quando nada parece acontecer acima da superfície.
A fé também se fortalece quando aquilo que aprendemos encontra as circunstâncias concretas da vida. Não basta acumular conhecimento sobre o ETERNO se aquilo que sabemos nunca é colocado em prática. É diante da espera, da dificuldade e da necessidade de escolher que a confiança deixa de ser apenas uma ideia. A experiência transforma aquilo que antes era apenas conhecimento em convicção.
Assim, a fé semelhante ao grão de mostarda não é definida pelo tamanho de seu começo, mas pela qualidade de seu desenvolvimento. Ela cresce, cria raízes e permanece; não porque seja imune às adversidades, mas porque não permite que elas interrompam seu amadurecimento. O tempo revela aquilo que estava oculto na semente, assim como a caminhada revela a consistência daquilo em que realmente confiamos. O que começou pequeno pode tornar-se profundamente enraizado.
Talvez, então, a pergunta mais importante não seja simplesmente “quanto de fé eu tenho?”, mas “o que está acontecendo com a fé que tenho?” Ela está crescendo ou permanece estagnada? Está sendo exercitada na vida ou continua apenas no campo das palavras? A imagem do grão de mostarda nos conduz a compreender a fé não como algo estático, mas como uma realidade viva que precisa desenvolver-se.
O grão de mostarda começa pequeno, mas não termina pequeno. Sua força está naquilo que carrega e naquilo que se torna quando atravessa o processo para o qual foi criado. Assim também é a fé que Yeshua apresenta: uma confiança que cresce, resiste, cria raízes e permanece diante das montanhas. Não é a fé que nunca encontra obstáculos, mas aquela que continua crescendo quando os encontra; não é a fé que precisa controlar o caminho, mas aquela que permanece confiando no ETERNO até encontrar por onde continuar.
Seja iluminado!!!
- Salmos 119:130 -
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