Por Cleiton Gomes
A figura de Lilith costuma ser apresentada como se estivesse escondida nas entrelinhas da Bíblia, como uma mulher apagada da narrativa oficial por razões teológicas ou patriarcais. Essa leitura, embora popular, não nasce do texto bíblico, mas de uma tentativa posterior de preencher lacunas que o próprio texto nunca deixou abertas. Quando Gênesis é lido com atenção literária e fidelidade ao hebraico, a ideia de uma primeira mulher anterior a Eva simplesmente não se sustenta.
O primeiro capítulo de Gênesis apresenta a criação da humanidade de forma ampla e sintética, sem preocupação com detalhes cronológicos. Homem e mulher aparecem juntos como parte de um único ato criativo, sem nomes, sem método descrito e sem distinções narrativas (Gênesis 1:27). O segundo capítulo não contradiz esse relato, mas o desenvolve de maneira sequencial (Gênesis 2:21-22). Ali, o texto mostra o homem sendo formado do pó da terra e, em seguida, a mulher sendo formada a partir dele, como resposta direta a um problema explicitamente declarado: “não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 1:18). A narrativa não apenas ignora a existência de qualquer mulher anterior, como afirma que a mulher surge justamente porque Adão estava só. Se houvesse outra mulher antes de Eva, o próprio argumento do texto perderia completamente o sentido.
A própria Escritura afirma que Eva é “a mãe de todos os viventes” em Gênesis 3:20, uma definição clara, genealógica e definitiva. Nos escritos apostólicos, Paulo reforça essa mesma ordem ao afirmar que Adão foi formado primeiro e depois Eva (1 Timóteo 2:13–14), ecoando diretamente o relato de Gênesis 2. Essa sequência estabelece o início da linhagem humana sem deixar qualquer margem para a existência de uma mulher anterior. O texto bíblico não demonstra interesse em ocultar personagens relevantes nem em corrigir versões alternativas da criação. Quando algo pertence à revelação, o texto declara. Quando não declara, o silêncio não é falha, é comunicação.
Em Isaías 34:14, o termo hebraico utilizado é לִילִית, cuja transliteração correta é lilít. Essa palavra aparece apenas uma única vez em toda a Escritura hebraica. O contexto é decisivo. O profeta descreve a desolação de Edom após o juízo, utilizando uma linguagem poética marcada por imagens de abandono, ruína e caos. Animais do deserto, criaturas noturnas e seres associados a regiões inabitáveis são listados como símbolos de um lugar entregue à morte. Nesse cenário surge o termo lilít, não como uma personagem histórica, muito menos como uma mulher ligada à criação, mas como parte de uma enumeração de criaturas associadas à noite e à desolação.
Do ponto de vista linguístico e histórico, há amplo consenso de que lilít se refere a um tipo de animal noturno. Muitas traduções optam por “coruja”, “criatura da noite” ou “ave noturna”. Há indícios de que o termo esteja ligado a uma espécie hoje extinta ou a uma designação genérica de aves associadas a regiões desérticas e ruínas. No antigo Oriente Próximo, animais noturnos eram frequentemente associados a rituais de feitiçaria e crenças populares, não por serem vistos como seres espirituais, mas por habitarem locais temidos e evitados. Isaías não está ensinando demonologia. Ele utiliza imagens conhecidas para comunicar a ideia de abandono total.
A associação posterior de lilít com uma figura feminina demonizada não nasce do texto de Isaías, mas de tradições folclóricas e místicas desenvolvidas séculos depois, fora do ambiente profético bíblico. É nesse ponto que o mito começa a tomar forma.
No imaginário religioso e social da antiga Mesopotâmia, o mundo era percebido como um espaço constantemente ameaçado pelo caos. A noite, o deserto, as montanhas e as regiões afastadas dos centros urbanos eram vistos como territórios hostis, imprevisíveis e potencialmente fatais. Nesse contexto surgiram figuras simbólicas associadas à escuridão, à esterilidade, à doença e à morte infantil. Muitas dessas figuras assumiam traços femininos, não por uma construção ideológica de inferioridade feminina, mas porque, naquele universo cultural, a fertilidade, a gestação e a continuidade da vida estavam profundamente ligadas ao corpo feminino. Quando algo falhava nesses campos, a explicação simbólica também assumia forma feminina.
Essas entidades não eram personagens históricas nem objetos de culto estruturado. Funcionavam como uma linguagem simbólica para lidar com o medo coletivo. Serviam para explicar tragédias, advertir comportamentos e impor limites sociais. A morte de recém-nascidos, abortos espontâneos, infertilidade e desaparecimentos noturnos eram fenômenos reais, mas cientificamente incompreendidos. O mito oferecia uma narrativa que organizava o medo. A mensagem era direta: certos lugares, horários e comportamentos trazem risco. Evite o deserto à noite. Não permaneça em locais isolados. Proteja crianças e gestantes. O medo educava onde a razão ainda não alcançava.
É fundamental observar que essas figuras não surgiam para explicar a origem do mundo ou da humanidade. Elas não pertenciam à cosmologia criacional, mas ao folclore preventivo. Funcionavam como advertência simbólica, não como doutrina. Com o tempo, especialmente após o exílio babilônico, elementos desse imaginário passaram a circular entre comunidades judaicas da diáspora. Esse processo não foi revelacional, mas cultural. Tradições populares passaram a coexistir paralelamente ao texto bíblico, sem jamais serem incorporadas à Torá ou aos Profetas.
Séculos depois, já no período medieval, essas lendas foram reorganizadas, reinterpretadas e exploradas literariamente. O exemplo mais conhecido é o chamado Alfabeto de Ben-Sira. Trata-se de um texto tardio, provavelmente escrito entre os séculos VIII e X, de caráter satírico, provocativo e assumidamente folclórico. Ele não reivindica autoridade profética, não pretende ser Escritura e nunca foi aceito no cânon judaico. Seu estilo mistura ironia, moralismo e humor ácido, o que por si só o distancia de qualquer pretensão teológica normativa.
Os livros apócrifos mais antigos são frequentemente invocados como se funcionassem como uma ponte legítima entre o texto bíblico e a tradição mítica posterior. Contudo, quando analisados com seriedade, o argumento em favor de Lilith simplesmente não aparece. Obras como Enoque, Jubileus e Tobias, embora ampliem temas angelológicos, escatológicos e cosmológicos, permanecem alinhadas ao relato de Gênesis no que diz respeito à criação do homem e da mulher. Nenhum desses textos sugere a existência de uma mulher anterior a Eva, nem apresenta Lilith como figura ligada a Adão, ao Éden ou à origem da humanidade.
O livro de Enoque, por exemplo, dedica amplo espaço à descrição de anjos, vigilantes, quedas celestes e transgressões pré-diluvianas. Se houvesse um ambiente propício para inserir uma entidade feminina primordial associada à ruptura da ordem criacional, seria esse. Ainda assim, Lilith não aparece como personagem nem como conceito teológico. O silêncio aqui é significativo. O autor de Enoque não demonstra qualquer conhecimento de uma tradição que ligasse Lilith à criação humana, o que indica que tal ideia ainda não existia ou não era considerada relevante.
O mesmo ocorre com Jubileus, um texto que se propõe a recontar e reorganizar Gênesis e Êxodo com riqueza de detalhes cronológicos e interpretativos. Jubileus expande narrativas, define datas, organiza genealogias e esclarece aparentes lacunas do texto bíblico. Mesmo assim, ao tratar da criação, reafirma Eva como a única mulher criada para Adão. Não há qualquer tentativa de harmonizar Gênesis 1 e 2 por meio da introdução de uma mulher anterior. Se a tradição de Lilith fosse antiga ou relevante, Jubileus seria o lugar natural para encontrá-la. O fato de não estar ali enfraquece decisivamente essa tese.
O livro de Tobias, embora menos voltado à criação, também reflete o pensamento judaico do período intertestamentário [1]. Seu universo simbólico inclui anjos, demônios e intervenções espirituais diretas na vida humana. Ainda assim, a demonologia ali apresentada não conhece Lilith como arquétipo feminino primordial nem como ameaça associada à criação ou ao matrimônio. Isso reforça a conclusão de que a Lilith conhecida hoje não pertence ao imaginário judaico antigo, mas a um desenvolvimento folclórico posterior.
Esse ponto é decisivo. Nem a Torá, nem os Profetas, nem os apócrifos mais antigos conhecem Lilith como a primeira mulher de Adão. A personagem que hoje circula em discursos religiosos, místicos e ideológicos é resultado de camadas tardias de folclore, construídas séculos depois, em contextos sociais e culturais completamente distintos do mundo bíblico. Não se trata de revelação progressiva, mas de reinvenção narrativa.
Quando a mitologia entra, o texto bíblico sai. A Torá não apresenta lacunas que precisem ser preenchidas por imaginação posterior. Seu relato da criação é internamente coerente, literariamente estruturado e teologicamente fechado. A diferença entre Gênesis 1 e Gênesis 2 não indica contradição, mas técnica narrativa. Introduzir Lilith para “resolver” um problema que o texto não reconhece equivale a afirmar que a Escritura falhou em comunicar com clareza, o que revela mais sobre o intérprete do que sobre o texto.
Eva não substituiu ninguém. Ela não é uma segunda tentativa. Ela é, desde o princípio, a mulher da narrativa bíblica, formada em resposta direta à solidão de Adão, reconhecida por ele e apresentada pelo próprio texto como a mãe de todos os viventes. Não há sombra anterior, não há rastro apagado, não há memória perdida. Há apenas o texto, dizendo exatamente o que pretende dizer.
Forçar Lilith dentro das Escrituras não ilumina o texto. Distorce. E quando se abandona o que o texto afirma com clareza para abraçar o que ele nunca disse, o resultado não é revelação, é confusão. A fidelidade à Escritura não exige criatividade mítica, mas leitura honesta.
Seja iluminado!!
Nota de rodapé:
[1] - Intertestamentário é o termo usado para designar o período histórico e literário entre o fim do Tanach e o surgimento dos escritos apostólicos.
Em termos de tempo, refere-se aproximadamente ao intervalo entre 400 a.C. e o século I d.C.. É chamado assim porque está “entre os testamentos”, não porque pertença a eles.
Nesse período ocorreram mudanças profundas no mundo judaico: domínio persa, depois helenístico e, por fim, romano; surgimento de diferentes correntes judaicas; desenvolvimento de literatura paralela às Escrituras. É nesse contexto que aparecem muitos dos chamados livros apócrifos e pseudepígrafos, como Enoque, Jubileus, Tobias, Sabedoria e outros.
Esses escritos ajudam a entender o ambiente cultural, linguístico e religioso do judaísmo do Segundo Templo, mas não têm status canônico. Eles não ampliam a revelação da Torá nem corrigem Gênesis. Funcionam como testemunhos históricos e literários de como certos grupos pensavam naquele período.
Quando se diz que um texto reflete o pensamento intertestamentário, está-se afirmando que ele expressa ideias surgidas nesse intervalo histórico específico, influenciadas por contextos políticos, filosóficos e culturais externos, e não por revelação profética normativa.
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