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Yeshua não veio trazer a paz ao mundo?

Por Cleiton Gomes


A tradição profética do Tanach constrói a expectativa de que o Messias seja o agente da paz definitiva, aquele que reorganiza a história humana sob justiça, equidade e reconciliação universal. Textos como Isaías 2 e 11 descrevem um horizonte no qual a violência é desativada, as armas perdem sua função e até o mundo animal participa dessa harmonia restaurada. É precisamente por isso que determinadas palavras atribuídas a Yeshua, especialmente no discurso registrado em Mateus 10:34-39, provocam estranhamento teológico e questionamentos sobre sua legitimidade messiânica.

Ao afirmar que não veio trazer paz, mas espada, e ao anunciar rupturas familiares como consequência de sua missão, Yeshua parece contrariar frontalmente a moldura profética clássica. Entretanto, essa tensão não nasce de uma contradição real entre Yeshua e as Escrituras, mas de uma leitura descontextualizada que ignora a linguagem profética, o ambiente histórico e o vocabulário simbólico do judaísmo do Segundo Templo. A fala não descreve um objetivo messiânico, mas um efeito social inevitável da revelação da verdade em contextos marcados por acomodação religiosa e distorção espiritual.


A literatura profética já havia antecipado que o tempo da intervenção divina seria acompanhado por desagregação social. O profeta Miquéias descreve uma geração em que a confiança se dissolve, os vínculos familiares se fragilizam e a fidelidade ao ETERNO se torna motivo de isolamento (Miquéias 7:5-8). Esse colapso relacional não é apresentado como virtude, mas como sintoma de um mundo que resiste à correção. O texto aponta que, em meio a esse cenário, resta apenas a esperança ativa naquele que julga com justiça. Trata-se de um pano de fundo escatológico no qual a verdade atua como elemento disruptivo, não porque seja violenta, mas porque desmonta estruturas sustentadas pela falsidade.


Esse mesmo entendimento aparece na tradição rabínica, que associa a era messiânica a uma intensificação do conflito moral. O Talmud e a Mishná descrevem um período em que valores se invertem, a autoridade ética perde legitimidade e aqueles que buscam retidão passam a ser marginalizados. Façamos a leitura de tais declarações:


Rabino Nehorai disse: na geração em que o Messias vier, os jovens insultarão os velhos, e os velhos estarão diante dos jovens [para lhes dar honra]; as filhas se levantarão contra as mães e as noras contra as sogras. (Miquéias 7: 6) O povo terá cara de cachorro, e o filho não se envergonhará na presença do pai.” (Talmud, b.Sanhedrin 97a).


Nos tempos da aproximação do Messias, a imprudência aumentará (...) a sabedoria dos escribas apodrecerá, e as pessoas que temem o pecado serão repelidas, e a verdade estará ausente. Os jovens envergonharão a face dos mais velhos, os mais velhos estarão diante dos menores. As relações familiares normais serão arruinadas: um filho desgraçará o pai; uma filha se levantará contra sua mãe, uma nora contra sua sogra. Os inimigos de um homem serão os membros de sua casa. O rosto da geração será como o rosto de um cachorro; um filho não vai mais ter vergonha diante de seu pai. E em que podemos confiar? Somente em nosso Pai [que está] no céu.” (Mishná, Sotá 9: 15 e 49b).

"Qual é o significado da frase: “E aquele que se afasta do mal é negado”? Os Sábios da sala de estudos do Rabino Sheila disse: Quem se desvia do mal é considerado louco pelo povo.” (Sanhedrin 97a). 


O problema, portanto, não é a presença do Messias, mas a incapacidade coletiva de lidar com o confronto que sua mensagem produz. A divisão não é causada por um projeto de ruptura, mas pela reação humana diante da exigência de transformação.


Quando Yeshua fala em espada, ele emprega uma imagem recorrente na linguagem bíblica para representar discernimento, separação e julgamento da verdade. A espada, nesse sentido, não fere corpos, mas corta ilusões. Ela distingue o que é tradição humana do que é mandamento divino, o que é aparência de piedade do que é fidelidade real. A Escritura associa repetidamente a palavra verdadeira do ETERNO a um instrumento que penetra, revela e expõe, jamais a uma arma de agressão literal. Assim, a espada mencionada não promove violência, mas evidencia linhas de ruptura já existentes entre verdade e engano.


O impacto dessa mensagem no ambiente doméstico não deve ser interpretado como incentivo à desagregação familiar, mas como reconhecimento realista de que a lealdade à verdade pode gerar tensão nos espaços mais íntimos. Em sociedades fortemente estruturadas por tradição religiosa, romper com interpretações herdadas e práticas consolidadas significava desafiar identidades coletivas profundamente enraizadas. Nesses casos, a adesão ao ensino de Yeshua implicava redefinir prioridades, o que frequentemente era percebido como ameaça à ordem familiar estabelecida.


A exigência de colocar o discipulado acima de laços afetivos não expressa desprezo pela família, mas estabelece um princípio de hierarquia ética. A fidelidade ao ETERNO não pode ser subordinada a expectativas sociais, ainda que essas expectativas se manifestem no âmbito familiar. Trata-se de uma lógica já presente na Torá e nos Profetas, segundo a qual a obediência não é negociável quando confrontada com pressões contrárias à verdade. A escolha não é entre amar ou não amar, mas entre permanecer fiel ou diluir a fidelidade para preservar a aceitação social.

Desse modo, a ausência de paz descrita por Yeshua não se refere à negação da paz messiânica futura, mas à impossibilidade de uma paz superficial em um mundo que ainda não foi reconciliado com a verdade. A paz plena pertence ao horizonte escatológico, quando a justiça for estabelecida de modo definitivo e a criação for restaurada. Antes disso, o confronto é inevitável, não como finalidade, mas como etapa.

A leitura acadêmica desse conjunto de textos conduz à conclusão de que não há ruptura entre Yeshua e as expectativas messiânicas do Tanach. Ao contrário, suas palavras se inserem de forma coerente na tradição profética que reconhece que a restauração passa, primeiro, pelo desmascaramento do erro. A paz prometida não é abolida, apenas não é antecipada artificialmente. O conflito não é glorificado, mas reconhecido como consequência de uma verdade que se recusa a coexistir com a mentira.

Assim, a afirmação de que Yeshua não veio trazer paz não invalida sua identidade messiânica, mas esclarece o custo histórico da fidelidade em um mundo desalinhado. A paz permanece como promessa, mas a verdade, quando anunciada, inevitavelmente separa antes de reconciliar.



Seja iluminado!!! 







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