Por Cleiton Gomes
A chamada cadeira de Moisés constitui um conceito profundamente enraizado na estrutura jurídica e educativa do judaísmo antigo, e sua menção pelo Messias no evangelho de Mateus não surge de modo casual ou meramente retórico, mas como o reconhecimento explícito de uma autoridade histórica legítima, ainda que exercida de forma desigual por aqueles que a ocupavam (Mateus 23:2). Ao afirmar que os escribas e fariseus estavam assentados na cadeira de Moisés, o Messias não está aprovando tudo o que eles faziam. Ele reconhece que essa autoridade tem origem na tradição de Israel e exerce uma função legítima, mas ao mesmo tempo deixa evidente o contraste entre o que eles ensinavam corretamente a partir da Torá e o modo incoerente como alguns deles viviam aquilo que ensinavam (Mateus 23:3).
Esse ensino remonta diretamente ao período do êxodo, quando Moisés, após a libertação do povo do Egito, passou a exercer a função de juiz, legislador e intérprete da instrução do ETERNO. A Escritura descreve Moisés assentado, julgando o povo desde a manhã até a tarde, ouvindo causas, dirimindo conflitos e transmitindo os estatutos e ensinamentos recebidos (Êxodo 18:13). Essa posição não é um simples detalhe do relato, mas expressa autoridade judicial, pois sentar-se para julgar e ensinar era o sinal público de quem tinha legitimidade para interpretar a Torá e aplicá-la à vida do povo de Israel (Deuteronômio 1:16-17).
É nesse contexto que surge o conselho de יִתְרוֹ (Yitrô), sogro de Moisés, cuja intervenção não enfraquece a autoridade mosaica, mas a organiza. Ao perceber que Moisés não conseguiria sustentar sozinho a responsabilidade de julgar todo o povo, Yitrô propõe que fossem escolhidos homens capazes, que temessem o ETERNO, fossem comprometidos com a verdade e não se deixassem corromper pela ganância, para compartilhar com ele a tarefa de governar e julgar o povo. (Êxodo 18:17-21).
A partir desse momento, Moisés passa a compartilhar a responsabilidade do julgamento com anciãos, formando uma estrutura organizada na qual as questões mais simples eram resolvidas entre o próprio povo, enquanto os casos mais difíceis continuavam sob sua responsabilidade direta (Êxodo 18:22, 26). Esse modelo não substitui Moisés, mas amplia sua autoridade, permitindo que ela fosse exercida de forma ordenada por meio de representantes legitimados.
O mesmo princípio é reafirmado quando o ETERNO ordena que Moisés reúna setenta anciãos de Israel para compartilhar o peso da liderança do povo (Números 11:16-17). Ao receberem parte do espírito que estava sobre Moisés, esses anciãos demonstram que sua autoridade não era independente nem autônoma, mas procedia diretamente da autoridade mosaica. Dessa forma, consolida-se um modelo de liderança compartilhada, responsável por julgar, ensinar e governar em nome da Torá, sempre subordinada à revelação transmitida por Moisés (Números 11:24-25).
Desse arranjo inicial nasce a tradição dos anciãos de Israel, que ao longo dos séculos se desenvolve até culminar no Sinédrio, especialmente no período do Segundo Templo. O Sinédrio não surge como uma inovação tardia nem como uma invenção farisaica, mas como continuidade histórica de um princípio já estabelecido na Torá, segundo o qual a instrução e o julgamento do povo deveriam ser exercidos por homens capacitados, sentados para ensinar e decidir conforme a lei mosaica (Deuteronômio 17:8-11). A cadeira de Moisés, portanto, não é um símbolo abstrato ou lendário, mas a representação concreta dessa sucessão de autoridade interpretativa.
Esse modelo não nasce em um contexto de perfeição espiritual, mas no cenário real de um povo recém-liberto, ainda marcado por séculos de idolatria, estruturas mentais egípcias e profunda imaturidade espiritual. A Torá não foi entregue a uma comunidade pronta, mas a um povo em formação. Por isso, a autoridade mosaica nasce no próprio processo de ensino da Torá, que conduz o povo enquanto o educa, corrige seus erros ao longo do caminho e orienta suas decisões enquanto exerce o julgamento. Quem ocupa posição de liderança permanece dentro desse fluxo formativo e não acima dele.
É nesse ponto que se firma o princípio que sustenta a cadeira de Moisés. Quem ensina a Torá deve ser o primeiro a se submeter a ela. A autoridade nunca foi um troféu a ser exibido, mas uma responsabilidade mais pesada, vivida em aprendizado constante, correção diária e arrependimento contínuo. Quando esse processo é interrompido, a estrutura pode até continuar de pé, os títulos podem permanecer e a função pode ser mantida, mas o testemunho se esvazia, a autoridade perde sua força moral e a cadeira passa a sustentar apenas aparência, não vida. A cadeira não santifica quem se senta nela. Ela apenas expõe quem a pessoa realmente é.
É exatamente essa ruptura que o Messias denuncia. O problema não é a existência da cadeira, nem a legitimidade da autoridade delegada, mas o congelamento do processo de aprendizado em alguns dos escribas e fariseus. Eles chegaram a um estágio em que ensinavam, mas não aprendiam mais, julgavam, mas não se deixavam julgar, corrigiam, mas resistiam à correção. A Torá, que deveria moldar o caráter, foi reduzida a instrumento de controle externo, perdendo sua função formativa.
Quando o Messias afirma que os escribas e fariseus se assentaram na cadeira de Moisés, ele reconhece que, do ponto de vista institucional e histórico, eles ocupavam legitimamente a função de intérpretes e aplicadores da Torá. Por essa razão, declara que o povo deveria ouvir e praticar aquilo que ensinavam quando transmitiam corretamente a instrução mosaica, pois a validade do ensino não estava condicionada à perfeição moral imediata do mestre, mas à fidelidade ao conteúdo da Torá exposto.
Essa afirmação desmonta a leitura segundo a qual o Messias estaria em oposição à Torá ou à autoridade derivada dela. Ao contrário, ele legitima a função, preserva a estrutura e reafirma o princípio de que o ETERNO governa o povo por meio de autoridades delegadas, ainda que imperfeitas. Contudo, esse reconhecimento não é incondicional. O Messias estabelece um critério rigoroso de avaliação, deixando claro que a autoridade institucional não dispensa ninguém da responsabilidade de continuar aprendendo, sendo corrigido e moldado pela própria Torá que ensina.
A hipocrisia denunciada pelo Messias não é apresentada como uma característica comum a todos os fariseus, mas como um desvio que se manifestava dentro do próprio grupo. O próprio judaísmo do período reconhecia sua pluralidade, com diferentes níveis de compromisso ético e espiritual. Ao confrontar os hipócritas, o Messias não rejeita a tradição da cadeira de Moisés nem deslegitima sua autoridade, mas procura restaurar seu sentido original, chamando aqueles que a ocupavam de volta à sua verdadeira finalidade, que era servir ao povo com justiça, misericórdia e fidelidade à Torá.
Assim, a cadeira de Moisés funciona como um elo visível entre a Torá, a tradição dos anciãos e o contexto do Segundo Templo, revelando uma continuidade histórica que o Messias não apenas reconhece, mas utiliza como base para sua exortação. Sua crítica não é destrutiva, mas corretiva. Ele não derruba a cadeira, mas confronta aqueles que se assentam nela sem carregar o peso ético que ela exige. O texto, longe de promover a rejeição da autoridade farisaica em si, propõe um retorno ao modelo mosaico original, no qual autoridade, serviço e coerência caminham juntos, sob responsabilidade diante do ETERNO e da comunidade de Israel.
Seja Iluminado!!!
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