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João 4:18: Yeshua e a mulher samaritana

Por Cleiton Gomes


O diálogo entre Yeshua e a mulher samaritana, especialmente a afirmação registrada em João 4:18, ultrapassa em muito um relato histórico circunstancial ou uma observação isolada sobre a vida pessoal de uma mulher. O texto é construído em três principais camadas que dialogam diretamente com o horizonte histórico, religioso e simbólico compartilhado pelo público do século I. Para compreender sua profundidade, é necessário reconhecer que a fala de Yeshua atua simultaneamente no plano literal, no plano profético e no plano redentor, conduzindo o leitor de uma realidade concreta a uma revelação mais ampla sobre a condição espiritual de Samaria e o propósito de restauração.

Na primeira camada, o texto apresenta um dado histórico real. Yeshua afirma que a mulher teve cinco maridos e que o homem com quem vivia naquele momento não era seu marido. A narrativa não nega a historicidade dessa informação. Ao contrário, ela funciona como ponto de contato imediato entre Yeshua e a mulher, demonstrando conhecimento verdadeiro sobre sua vida. Esse nível literal não pode ser descartado, pois ele fundamenta a credibilidade da fala de Yeshua dentro da narrativa e explica por que a mulher reconhece que há algo extraordinário em sua percepção.

Entretanto, o texto não se esgota nesse nível. A reação da mulher demonstra que ela não compreende a fala de Yeshua como um ataque moral privado ou como uma acusação pessoal de cunho jurídico. Em vez de reagir com constrangimento, defesa ou tentativa de justificação, ela o reconhece como profeta e desloca imediatamente a conversa para uma questão coletiva e teológica, relacionada ao lugar legítimo da adoração.

Essa transição deixa claro que a mulher percebeu que a fala de Yeshua não estava centrada apenas nela, mas em algo maior do que sua própria história. Ela entendeu a declaração dentro da lógica profética, na qual a vida de um indivíduo pode representar a condição espiritual de um povo inteiro.

É nesse ponto que a segunda camada do texto se revela com clareza. A fala de Yeshua se conecta diretamente ao pano de fundo histórico descrito em 2 Reis 17, onde se narra a formação da identidade religiosa samaritana após a queda do reino do Norte. O reassentamento promovido pelos assírios introduziu na região diferentes povos, cada qual trazendo consigo suas práticas religiosas.

O texto bíblico descreve esse processo como a formação de um sistema no qual se temia ao ETERNO e, ao mesmo tempo, se servia a outros deuses (2 Reis 17:33). Os verbos hebraicos yare’ (ירא, temer) e ‘avad (עבד, servir) aparecem lado a lado, aplicados simultaneamente ao ETERNO e às divindades estrangeiras, indicando um sincretismo religioso estrutural e contínuo, não um desvio pontual.

Essa continuidade é reforçada pela repetição da mesma avaliação ao longo do capítulo, por meio de expressões que apontam para permanência histórica, como “até hoje fazem segundo os costumes antigos” (2 Reis 17:34, 40). O sincretismo, portanto, não foi corrigido nem superado com o passar das gerações, mas transmitido, reorganizado e normalizado como parte da identidade religiosa samaritana.

Essa leitura encontra respaldo nas fontes históricas do período. Flávio Josefo, em Antiguidades Judaicas IX.14.3 e XI.8.6, descreve os samaritanos como um grupo cuja identidade religiosa se ajustava conforme a conveniência política, reivindicando vínculo com Israel em momentos favoráveis e negando-o em contextos de perseguição. Para Josefo, o culto samaritano jamais alcançou plena legitimidade, pois nasceu de uma mistura histórica e permaneceu associado a um templo rival no monte Gerizim. Esse testemunho indica que, no século I, a elite judaica ainda via Samaria como herdeira de um desvio estrutural, e não como um ramo legítimo do culto mosaico.

A análise acadêmica moderna converge na mesma direção. Geza Vermes reconhece que os samaritanos professavam devoção exclusiva ao ETERNO e seguiam a Torá, mas ressalta que essa Torá era textualmente distinta, com alterações ideológicas relevantes, especialmente no que diz respeito ao local da adoração. Para Vermes, o conflito entre judeus e samaritanos não era moral nem superficial, mas estrutural, envolvendo autoridade textual, tradição sacerdotal e memória histórica. Mesmo sem idolatria explícita no sentido clássico, o sistema samaritano permanecia teologicamente separado e, do ponto de vista judaico, comprometido  (VERMES, Jesus the Jew, Fortress Press).

Ao conectarmos o relato de João 4 com 2 Reis 17, a correspondência histórica e simbólica se torna evidente. Samaria não surge como uma potência religiosa coesa desde o início. O texto descreve um processo histórico. Primeiro, há a queda do reino do Norte. Em seguida, o reassentamento assírio introduz cinco povos distintos, Babilônia, Cuta, Ava, Hamate e Sefarvaim (2 Reis 17:24), cada qual trazendo sua própria tradição religiosa, memória cultual e divindades (2 Reis 17:29–31). Nesse estágio inicial, ainda não existe um culto samaritano unificado, mas a sobreposição de lealdades religiosas distintas ocupando o mesmo território.

O número exato de divindades envolvidas não constitui o ponto central do relato, pois a Escritura não trabalha com uma contagem aritmética de deuses, mas com sistemas religiosos compreendidos de forma histórica e coletiva. Canaã, Babilônia e outras potências religiosas são apresentadas biblicamente como tradições religiosas inteiras, ainda que, em seu interior, existisse uma diversidade de deuses e práticas cultuais.

Esse mesmo princípio interpretativo se aplica a Samaria, cuja identidade religiosa não se formou de modo instantâneo, mas de maneira histórica, progressiva e integrada, a partir da convivência e posterior fusão dessas diferentes tradições religiosas.

Quando Yeshua menciona cinco maridos, sua fala ecoa esse repertório simbólico conhecido tanto por judeus quanto por samaritanos. Os maridos não representam divindades isoladas, mas as alianças religiosas trazidas pelos cinco povos que moldaram a base do que mais tarde se tornaria o culto samaritano. O sexto relacionamento, descrito como existente, mas ilegítimo, corresponde ao sistema religioso já institucionalizado, que se apresenta como devoção ao ETERNO, mas permanece desvinculado de uma aliança reconhecida no eixo textual e cultual preservado pelo judaísmo.

Dessa forma, o texto articula de modo coerente o plano individual e o plano coletivo, sem exigir que o leitor opte por uma leitura exclusivamente literal ou exclusivamente simbólica. A experiência pessoal da mulher funciona como ponto de partida narrativo para revelar uma realidade histórica e espiritual mais ampla, inteligível dentro do contexto compartilhado por aquele público e plenamente alinhada à linguagem profética das Escrituras.

Há ainda uma terceira camada, a da restauração. O encontro não se limita a revelar a condição espiritual de Samaria, mas aponta para a possibilidade concreta de reintegração e reconciliação. Ao conduzir a conversa para a adoração em espírito e verdade, Yeshua desloca o eixo do conflito entre Jerusalém e Gerizim e anuncia a superação de uma ruptura histórica que atravessava gerações. Não se trata apenas de redefinir o local do culto, mas de inaugurar um novo horizonte de relacionamento com o ETERNO, no qual a fidelidade não estaria condicionada a um monte específico, mas à verdade da aliança.

Historicamente, o território samaritano corresponde ao coração do antigo reino do Norte, frequentemente identificado nas Escrituras como Casa de Israel. Não se tratava de um território afastado, periférico ou deslocado. Portanto, quando Yeshua entra em Samaria, Ele não está indo a uma terra estrangeira, mas caminhando sobre o solo histórico da Casa de Israel, agora carregado de uma identidade ferida e contestada. Isso é decisivo para o sentido do texto.

A restauração anunciada ali não é territorial, porque o território nunca deixou de ser israelita em termos históricos. Ela é identitária, cultual e pactual. Yeshua pisa no mesmo chão, mas fala a um povo cuja história foi fragmentada. É isso que dá peso teológico ao encontro.

A ida de Yeshua a Samaria, portanto, é intencional e carregada de significado. Do ponto de vista judaico do primeiro século, atravessar aquela região, dialogar com samaritanos e permanecer entre eles não era conveniente nem esperado. Ainda assim, Yeshua não apenas passa por Samaria, mas permanece ali por alguns dias, ensina e se deixa ouvir.

Sua intenção não é o proselitismo nem a conversão de gentios, mas o encontro com uma parte ferida de Israel, marcada por sincretismo, afastamento e exclusão. Quando afirma que “a salvação vem dos judeus”, Yeshua não exclui os samaritanos, mas aponta para a origem histórica da restauração, que Ele próprio efetiva como Messias ao alcançar aqueles que haviam sido dispersos e feridos pela ruptura do passado.

Esse movimento se torna ainda mais significativo pelo modo como a narrativa se encerra.  Yeshua não se limita ao diálogo inicial com a mulher samaritana, mas passa a ser reconhecido pela própria comunidade como o salvador do mundo.

Essa confissão, colocada deliberadamente nos lábios dos samaritanos, não é retórica nem acidental. Ela sinaliza que a atuação messiânica não se restringe a validar quem já se encontrava no centro religioso preservado, mas se dirige também àqueles que foram historicamente afastados, fragmentados e marcados pela ruptura. Samaria, portanto, não aparece como um desvio irrecuperável, mas como um território onde a restauração se torna concreta e historicamente visível.

Assim, João 4:18 não deve ser lido como um simples julgamento moral nem como uma alegoria artificial. Trata-se de uma construção narrativa profundamente enraizada na história de Israel, na linguagem profética das Escrituras e no propósito de restauração que atravessa o ministério de Yeshua.

A mulher samaritana encarna a trajetória de seu povo, seus desvios e suas buscas e, ao mesmo tempo, torna-se instrumento para anunciar que a restauração é possível. O texto conduz o leitor da história ao símbolo, do símbolo à revelação e da revelação à esperança, de forma coerente, contínua e plenamente integrada ao universo bíblico.



Seja iluminado!!!





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